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sábado, 3 de novembro de 2007

O ser humano não tem salvação e a Björk dança de forma incompatível com sua música. Essas e outras notícias, sobre o Tim Festival em Curitiba:

Esses tempos eu estava imaginando: como alguém espera que a sociedade funcione, que o Estado funcione, se simples relações humanas não funcionam? É uma questão lógica, do teste científico com ratinhos. Posso exemplificar. Uma das questões mais básicas em termos de respeito é guardar aquilo que pegou, limpar aquilo que sujou, arrumar aquilo que desarrumou. E isso, esses atos simples, são quase impossíveis de serem realizados pela maioria. É uma realidade agravada pelo advento da empregada doméstica, mas, antes disso, é uma realidade humana, ou seja, animal. No trabalho, também por exemplo, os colegas fazem aquilo que afeta apenas diretamente o próprio serviço, não se importando com as conseqüências da prática ou não prática para o serviço dos outros colegas. Regras que poderiam imprimir uma organização maior do trabalho todo são ignoradas, porque o ser humano não gosta de seguir regras. Alguns até gostam de criá-las, mas a maioria absoluta não consegue segui-las. Na vida em grupo, somente regras podem evitar o caos. Mas regras são (ou precisam ser) pactos, e pactos pressupõem o desejo coletivo de evitar o caos e pressupõem o respeito coletivo. Só assim as leis funcionariam, a justiça funcionaria, as coisas coletivas todas funcionariam. Mas o coletivo prefere deixar tudo como sempre foi, levar tudo menos a sério. Vamos ao Tim Festival em Curitiba. Antes do show da Björk, tocou nos alto-falantes uma música étnica, e o público começou a gritar "muda a música" e "Björk", não se dando conta de que era quase certo que tinha sido a Björk mesmo quem havia escolhido aquela música para preceder seu show. Eu gritava de volta "vão ouvir rádio em casa". Quando a Björk estava entrando no palco, uma garota subiu nas costas do namorado, tampando a visão de muitas pessoas, dentre elas eu e a Tunnie. As pessoas começaram a urrar para ela descer, e ela virava e dava gargalhada. Começaram a jogar coisas nela, e ela continuava gargalhando. Gente como eu e a Tunnie pagamos avião e ingresso somente para ver a Björk. Acertei três latas de cerveja na guria, sendo que uma bem no rosto. E ela não desceu. A Tunnie tentou derrubá-la, e então ela desceu. Era apenas uma garota querendo ver a Björk sem cabeças na frente, mas, para isso, ela fez com que muitas outras pessoas (mais que uma, mais que ela) não conseguisse vê-la. Parece um exemplo isolado, mas é esse o espírito de todos - ou quase todos. No avião da volta, dois amigos estavam com tocadores de MP3. Um estava sentado do nosso lado e tinha um iPod; o outro estava sentado na primeira poltrona depois do corredor e tinha um tocador genérico. O do nosso lado desligou várias vezes o aparelho, mas voltava a ligá-lo em seguida. Começamos a ficar nervosos, pois no avião da ida já tivéramos que advertir um carinha que estava na nossa frente que não é permitido utilizar equipamentos eletrônicos durante a decolagem, embora o comissário já houvesse falado no sistema de alto-falantes. Avisamos a comissária que esse nosso vizinho estava ouvindo iPod, e ela prometeu adverti-lo quando passasse para revisar as poltronas. Mas, quando ela passou, o nosso vizinho escondeu o aparelho no meio das pernas. Depois, voltou a ligá-lo, mais uma vez, só que agora sem colocar os fones no ouvido. Aproveitei:

- Tu não vai conseguir desligar, né?
- Por quê?
- Porque tu tá fissurado.
- Cê tem medo de voar, né?
- Não. É uma regra.
- Regra? iPod não tem problema.
- Não tem problema? - Mostrei o cartão da Gol com um desenho do iPod e um xis em cima.

No fim do vôo, o outro amigo fez um videozinho simulando entrevista com o nosso vizinho: "Estamos aqui com o professor Daniel de Oliveira. É verdade que você foi insistentemente advertido para que desligasse o iPod durante a decolagem?" E "quá quá quá quá quá". Quando o avião aterrissou, a comissária disse "Mantenham seus cintos afivelados até a completada parada da aeronave" e concomitantemente ouviram-se os sons de todos os passageiros desafivelando imediatamente os cintos. E ligando os celulares. Tem salvação? Eu tenho certeza que não. Como diz o Lama, é assim. Meu sonho é conseguir parar de lamentar.

Sobre a Björk. A jornalista do Terra que cobriu o show de Curitiba disse que ela dança de forma infantil. Eu concordo. Ela dança sempre da mesma forma, e é uma forma infantil, meio hippie. Isso até que não seria grande problema se a música dela não fosse o oposto, moderna e agressiva, muitas vezes. Em 'Army of me' percebi o maior contraste. Em 'Jóga', uma música completamente reflexiva e dançável de forma muito cuidadosa e lenta, lá estava ela correndo com pulinhos e mexendo os braços para um lado e para o outro, de baixo até em cima. Outra coisa que não me agradou é que os únicos que tocavam instrumentos reais eram os componentes da orquestra islandesa Wonderbrass; o resto era eletrônico, gente dando play. Então parecia um grande playback com uma ótima cantora no centro. Sim, ótima cantora e ótima compositora. O play, por outro lado, só reforçou a minha idéia de que as músicas da Björk são sensacionais, principalmente quanto ao arranjo, principalmente - dentro do setlist do show - em 'Army of me'. Quanto à pessoa dela, o que mais me agradou foram os pés descalços e os gritinhos repetidos de "Oprricá!". Eu queria que ela estivesse de cabelo preso e com menos roupa. Esperei que ela tirasse aquela capa verde. E, sim, sou muito chato para avaliações, principalmente as artísticas.

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