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sexta-feira, 16 de novembro de 2007

(Este texto talvez seja um dos mais importantes que eu escrevi na vida. Os mais sensíveis e espertos talvez impressionar-se-ão com a minha nudez; os outros, talvez, se lerem, classificar-me-ão como louco ou criança. Mas esta é a minha vida, uma vida humana.) Está sendo desesperadoramente insuportável. O Fuzzy não era só meu gato, ou meu filho (filhos um dia saem de casa), ou meu irmão, ou meu amigo. Ele era mais que isso, ele era a coisa mais sólida que eu tinha na vida, para mim era certo que ele ficaria junto comigo até o fim de uma das nossas vidas. Éramos uma pessoa só em corpo e mente. Em corpo porque ele ficava deitado no meu colo enquanto eu escrevia (ou fazia um disco) neste computador. Ele gostava que eu ficasse com as pernas em triângulo, colocando os pés na beirada da cadeira, porque aí ele deitava em 45 graus e ficava com o queixo apoiado nos meus joelhos, muitas vezes abrindo e fechando cada patinha alternadamente. Quando ele estava assim, muitas vezes eu levantava o pescoço dele para beijar debaixo, aquela fonte mais rica do planeta em algodão. Eu não cansava de olhar para o queixinho sardento dele, que parecia sujo de comida, e para a manchinha branca que ele tinha no meio das costas. Ontem quando as couraças desenvolvidas em nome da esperança desabou, senti uma dor enorme de abstinência física do meu gato branco, irmanando-me com a Cvalda de um jeito que eu nunca tinha visto. Enquanto ela cheirava pontos da casa com o cheirinho do Fuzzy e rolava nele, eu apertava a minha namorada e eu próprio na urgência de sentir a forma do Fuzzy debaixo daquela forma apertada, como se fosse mágica. Eu preciso dele, eu preciso vê-lo, apertá-lo, cheirá-lo. Ele era o meu companheiro indissociável. Preciso do bafo dele, dos arranhões, dos estragos nas coisas dentro de casa. Enquanto a Cvalda ainda procura ele atrás da cortina e atrás do sofá, enquanto ela mia chamando-o e, ao mesmo tempo, olhando para mim e pedindo que eu o traga de volta, a única coisa que eu posso falar para ela é que eu estou sentindo a mesma coisa e que não é culpa minha que eu não posso trazê-lo de volta. Tentei, inutilmente, deitar em lugares onde ele deitou, quem sabe eu não me transformaria no Fuzzy. Ontem, para tentar distrairmo-nos, vimos o filme dos irmão Coen 'Ei, meu irmão, cadê você?'. Nada nunca é por acaso, não? Uma das principais músicas do filme tem a seguinte letra: "You are my sunshine, my only sunshine. You make me happy when skies are grey. You'll never know, dear, how much I love you. Please don't take my sunshine away." Por mais que eu pensasse que quando eu chegasse em casa haveria o Fuzzy a Cvalda, eu sempre me surpreendia quando chegava na porta, quando estava prestes a girar a chave, ouvindo os miados de recepção do meu brancão, famosos em todo o prédio aqui. Não morreu apenas esse gato de que estou falando, morreu parte de mim, parte da minha história e da minha memória, parte da minha força na separação que faz pouco mais de um ano, parte da força que me fez passar num concurso tão desejado. O Fuzzy era parte da minha energia e eu, parte da dele. Era uma simbiose. Éramos uma pessoa só em mente porque ele era o ser vivo mais parecido comigo que existia. Pense em qualquer virtude minha ou defeito meu, ele tinha, e vice-versa. Agitado, ansioso, hiperativo, teimoso, chato, descoordenado, carente, inteligente, esperto, carinhoso, diplomático, aberto, obsessivo, grude, obstinado, musical. Não consigo suportar a idéia de não vê-lo envelhecendo, ficando cada vez mais esperto e estebelecendo cada vez mais uma comunicação direta comigo. Não consigo parar de chorar e querer ouvir os miados dele. Eu até ouço, às vezes. A Cvalda não consegue parar de miar, e qualquer barulho dentro de casa a faz correr para ver se não é o Fuzzy. Eu não consigo entender por que isso foi feito com ele e comigo - e com a Cvalda, e com... Nunca foram tão agradáveis para mim as idéias de haver vida após a morte ou existir máquina do tempo, nunca talvez tenha sido tão aceitável a idéia de eu morrer agora. Mesmo se não houver vida após a morte, quando eu morrer, eu estarei na mesma condição que o Fuzzy, encontraremo-nos de qualquer forma. E talvez só assim eu e ele voltaremos a estar no lugar certo: juntos. Não tem NADA dentro de casa ou em mim ou até na rua ou em qualquer lugar que não me lembre o gato branco. Hoje eu acordei pela primeira vez sabendo que ele realmente não estava aqui. Eu costumo sonhar que não estou encontrando alguém e acordo aliviado por ter sido só um sonho. Mas desta vez não foi assim. Acordei com a Cvalda dormindo nas minhas pernas. Levantei a coberta e, ao me ver, ela veio subindo até mim e cheirando o Fuzzy no meu pijama. Isso não pode ser verdade. Não pode ser tortura maior ver a Cvaldinha também sofrendo como eu. Sempre que alguma coisa terrível como essa acontece, é menos insuportável encontrar um culpado, e eu encontro esse culpado em mim: porque eu separei os quatro gatos, porque eu fiz mudança duas vezes, porque eu briguei muitas vezes com o Fuzzy, porque eu não internei ele de manhã, porque eu não percebi que por duas vezes ele não tomou o remédio para o coração que eu achei que tinha dado, porque eu não tinha força suficiente para vê-lo naquele estado e continuar otimista para transmitir energia positiva para ele, porque eu não sabia que fazendo uma medição da pressão arterial talvez fosse detectada a hipertensão que provavelmente causou a cardiomiopatia. "Se eu pudesse voltar no tempo, eu o salvaria." No serviço público, existe algo chamado licença-nojo, oito dias de folga para quem perde um parente próximo. Não terei direito a isso. Ninguém entenderia se eu pedisse. Parte de mim morreu e, socialmente, eu preciso fazer de conta que foi "só um gato". "Essas coisas acontecem", "vai passar" etc. A minha namorada disse que eu sou "warm and fuzzy". Mas agora eu sou só "warm". Que nem diz o Grant Lee Buffalo, com uma linda e inesquecível melodia: "I lied to. Now I'm Fuzzy."

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