"A filosofia nasceu na Grécia como metafísica, a busca pelo princípio de todas as coisas ou pelo significado mais fundamental da existência. A ética apareceu em seguida, quando os filósofos começaram a se ocupar da questão da vida humana. Ethos, raiz da palavra 'ética', era o termo usado pelos gregos para definir o modo como as pessoas viviam e conviviam. Hoje em dia usamos a palavra 'comportamento' com o mesmo objetivo, para explicar como agimos junto com os outros, como seres que interagem e coabitam. A questão da ética define, portanto, sempre o modo da relação que se tem com o outro.
"Aristóteles foi o primeiro filósofo importante que refletiu sobre a ética. Para o autor do clássico Ética a Nicômaco, o maior problema da ética era a felicidade. Ética era a forma de vida que levava à felicidade. A busca da felicidade dava o sentido da vida humana em sua dimensão pessoal e coletiva. A polis, o lugar onde as pessoas conviviam, dependia da ética. E se falar em ética era falar em felicidade, a felicidade como parte da ética tinha um cunho político (palavra que também deriva de polis). Essa dimensão é o que nós perdemos de vista em nossos dias.
"Naquele tempo, justamente por ser 'sabedoria prática', sabedoria aplicada à ação, a ética dependia de uma teoria da virtude, ou seja, de uma sabedoria que explicasse como o ser humano poderia fazer-se excelente – o que, para os gregos, significava ser civilizado, bom, belo, rico, culto, corajoso, livre e, sobretudo, filósofo. Por que ser filósofo? Porque o filósofo era aquele que buscava a sabedoria, procurava as respostas melhores e, principalmente, se esforçava para propor as perguntas certas para as questões da vida. O filósofo era o pensador livre e responsável, apto a buscar o sentido passado e presente das coisas e o rumo futuro de sua própria vida, como ser pensante diante da sociedade onde vivia.
"A felicidade representava na obra de Aristóteles muito mais do que uma sensação própria a um indivíduo voltado para a alegria ou os prazeres. Não queria dizer bem-estar pessoal nem qualidade de vida, não queria dizer apenas ter saúde ou bens nem realização profissional, nem estar em paz consigo mesmo e com os que vivem ao seu redor, traços do que tratamos como felicidade e que – para além da mera satisfação com mercadorias e bens – podem ser compreendidos e desejados por todos nós. Antes a felicidade era a máxima virtude. Um modo de ser humano sem almejar ser divino nem deixar-se ser mero animal.
"Não podemos, é óbvio, pensar que a felicidade, tal como a concebia Aristóteles, nos sirva hoje. A felicidade só pode ser pensada com base na sua evolução histórica. Havia, porém, aquele aspecto da felicidade que não consideramos em nossos dias e que precisa ser recuperado. É preciso lembrar que a felicidade era, em Aristóteles, um ideal ético da vida. A vida ética era a vida justa, corretamente vivida por um cidadão, alguém que sabia de seu papel na sociedade, que ao pensar em si levava em conta o todo: família, amigos, sociedade, natureza.
"Aristóteles chamava a felicidade de eudaimonia, palavra que continha o termo daimon, espécie de espírito interior, guardião da intimidade, do valor pessoal de cada um. Esse ideal de felicidade era diferente do que apareceu depois com Epicuro, que tratou a felicidade como hedonismo. Hedoné era a palavra grega para significar o prazer. Não o mero prazer da carne, mas também o do espírito. (...)" (Marcia Tiburi, Revista Vida Simples)
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segunda-feira, 4 de junho de 2007
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