Debate no orkut sobre o cinema do David Lynch: é para entender ou não é para entender.
Don: Discordo. O próprio Lynch deixou claro em inúmeras entrevistas que a narrativa de seus filmes são mais lineares e palatáveis do que a crítica supõe. E como qualquer filme, tem sim uma intenção, mas que vai além de passar sentimentos e emoções causadas por estranheza e complexidade. Essas sensações estão lá como elemento de composição do universo dos personagens e da narrativa. Servem de apoio para os personagens ou para a história que está sendo contada. Ou seja, compreender sentimentos não são o objetivo principal de seus filmes. Em outras palavras, eles estão lá como um meio para se atingir algo e não como um fim, o objetivo central. Se eu fosse pensar que Lynch faz filmes para que compreendamos APENAS sua intenção em transmitir estranheza e outros sentimentos obscuros, eu diria que seu cinema é extremamente pobre e jamais o consideraria um grande diretor, talvez o maior cinesta americano vivo.
G.: Concordo com o Don. Estrada Perdida mesmo que é complicado pra caralho tem uma lógica bem concisa, é só analisar o filme com idéias passadas do diretor que você começa a ver que não é impossível de entender. Veja a estrada como uma espécie de Black Lodge por exemplo.
Douglas: Estamos usando outro significado para a palavra "entender". Não é um entendimento racional, mas um entendimento sensível, perceptivo, inconsciente, indizível. Pelo menos eu acho que é isso, senão eu não teria entrado nesta comunidade. É justamente ENTENDER que NÃO É PARA ENTENDER. Do meu profile: "Eu adoro os mistérios e não saber o que vai acontecer. Que as luzes sejam apagadas, a telona seja aberta e entremos em outro mundo." (David Lynch)
Don: Exatamente, G. Foi isso o que quis dizer. Douglas, o entendimento de qualquer coisa ao nosso redor atravessa vários níveis perceptivos até chegar na racionalidade. A palavra entender não possui dois significados diferentes. A sensação e a percepção estão sim no cinema de Lynch, mas o que acho genial, é que vai além. Estão servindo de apoio para narrativas, é aí que o sentido aparece.
Ele deixa a gente perdido no começo, mas aos poucos as coisas vão se encaixando.
Ele constrói narrativas descontruídas - no tempo e no espaço - da mesma forma como acontece com nossos sonhos, nossas sensações, enfim, nosso inconsciente. Por isso não acredito nessa história de que não é para ser entendido. Confesso que para começar a entender o Estrada Perdida, precisei ver duas, três vezes. E o que é mais ducaralho nisso, é que estou na quinta vez e vendo o filme de uma maneira completamente diferente. Será que na sexta eu terei outra interpretação? Por isso eu considero o David Lynch o maior cineasta americano vivo. Ele levou o cinema para o inconsciente de um jeito que só ele mesmo conseguiria. Esse eu considero gênio.
Douglas: Discordo um pouco. Entendimento, no sentido clássico, pressupõe que há algo para ser entendido. No caso do trabalho do Lynch, não há uma intenção de sentido. Ele disse numa entrevista que pensa nos filmes como músicas, em que seqüências de cenas/acordes vão provocando reações no espectador/ouvinte. Ele sempre deixa claro que não há intenção, ele sequer "sabe" dizer o que significa a sala vermelha no Twin Peaks, se é apenas uma "waiting room", se é o black lodge, se é o white lodge, ou se é os dois ao mesmo tempo. Ele disse que pensou em inserir uma cena com aquela plasticidade, só isso. Então, se há sentido nas suas obras, eles são formados pela interpretação do fruidor. Se aos poucos as coisas vão se encaixando, é tudo por conta da racionalidade de quem tenta montar esse sentido. As pessoas que tentam, em fóruns por exemplo, remontar as cenas (principalmente em 'Mulholland Drive'), acreditando que elas estão apenas desordenadas, ou dizendo que tal coisa significa tal coisa, estão tentando entender, estão fazendo a sua interpretação, mas não é esse o objetivo do diretor. No entanto, há quem diga que a intenção do diretor não importa.
Douglas: Don, nós lemos entrevistas diferentes e contraditórias. O Lynch não pretende transmitir estranheza e sentimentos obscuros, ele não pretende nada. A arte existe justamente para representar o indizível, para entrar no terreno em que a racionalidade não chega. Por isso sou contra análises e resenhas, elas tentam tirar a obra de arte do seu hábitat natural e colocá-la de volta à esfera da razão, e isso é um erro. Assim, uma obra que não contém uma amarração entendível, palatável, que viaja por outro tipo de relação com o fruidor atingiu em cheio o sucesso como arte, portanto jamais poderia ser considerada pobre. Não sei se estamos falando realmente de idéias opostas, mas, todo caso, é um ótimo debate.
Douglas: Em tempo: as pessoas não suportam não entender.
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quarta-feira, 20 de junho de 2007
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