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sexta-feira, 22 de junho de 2007

Continuação - e fim - daquela discussão sobre Lynch cujo início eu colei três posts abaixo.

Don: Douglas, agora eu percebi que realmente estamos falando de coisas diferentes. Quando eu me refiro ao sentido de sua obra, não estou tratando dos estilos de locações escolhidos ou aos elementos que ele utiliza para a composição das cenas, isto é, do universo quase sempre sombrio que ele magistralmente constrói.
Se bem que mesmo esses cenários não estão ali à toa. No caso de Estrada Perdida, Lynch transpõe o inconsciente de seu personagem central para a tela, como que se adentrássemos em sua cabeça e sentíssemos suas angústias, seus medos, enfim, todas as sensações que ele - Lynch - imaginou que seu personagem Fred sofre. Por causa disso a trama é toda cheia de saltos no tempo, representando a maneira como ele lembra ou constrói as situações vividas por ele. Da mesma forma como isto ocorre com nossos sonhos, que é justamente a maneira com a qual ele construiu toda a narrativa da personagem central em Cidade dos Sonhos, cheias de devaneios, saltos no tempo, entre outros. Não importa se o cenário escolhido para representar isso é apenas uma waiting room, se é o black lodge, se é o white lodge, ou se são os dois ao mesmo tempo. Acredito que ninguém deva buscar sentido aí. Nisso eu concordo com você. Mas quando vc fala que não há uma intenção de sentido no trabalho de Lynch, eu discordo totalmente. Existe sentido em suas narrativas. É isso que as pessoas deixam de lado. Elas são por vezes absolutamente descontruídas, não-lineares, mas estão lá. Ou seja, por trás desse universo non-sense existe um sentido, uma narrativa sendo desenvolvida. Claro que vc não consegue ver tudo claramente numa primeira interpretação, mas com o tempo essa história vai se mostrando mais linear e mais clara do que havíamos imaginado numa primeira fruição. E isso eu considero fascinante em seus filmes. Mesmo as reações a que vc se referiu estão lá para dar uma roupagem à um roteiro, a uma narrativa, a uma história, que partiu de intenção de contá-la, na visão do autor. A interpretação do público é uma primeira etapa dessa comunicação. O que ocorre é que Lynch não fica só aí. A interpretação em seus filmes percorrem outras etapas até chegar na racionalidade, no entendimento. A racionalidade não tenta montar nada aleatoriamente. É aquilo que falei, num primeiro contato, vc fica perdido. Mas daí chegarmos à conclusão que o caminho parou por aí e desconsiderar a possibilidade de sentido é algo que empobrece, reduz a abrangência de sua obra. Eu já li entrevistas em que ele afirmou que seus filmes são mais lineares do que se imagina, e são realmente. O argumento de Estrada Perdida pode ser descrito em dez linhas, no máximo. Isto é, se partiu de algo, se quis contar algo, consequentemente teve uma intenção. Independente se a luz do filme é roxa, laranja, se tem cortina vermelha, se tem uma velha levando um tronco de madeira numa das cenas, ou se o carro do personagem era velho caindo aos pedaços. Última uma coisa: quando vc fala que a arte existe para representar o indizível vc na verdade está dizendo que a arte serve para dar sentido a algo. Pois tudo aquilo que serve para representar algo, tem a intenção de comunicar, e precisa necessariamente significar algo. O sinal vermelho serve para sabermos que não podemos atravessar. No futebol, o apito do juíz serve para interromper o jogo sem que o mesmo precise berrar. O mictório de Duschamps também teve uma intenção de sê-lo. Por que o mictório e não um bebedouro? Mas aí é outra discussão.

Douglas: A arte serve, sim, para representar e comunicar o (verbalmente) irrepresentável e o (verbalmente) incomunicável, mas não serve para dar sentido, acepção, significação, porque essas coisas passam pela verbalização, pela racionalidade, pela linearidade. E eu acredito que o Lynch trabalha nesse conceito de arte. No momento em que é possível traduzir a obra em linearidade, e essa tradução confere com uma intenção original igualmente racional do artista, tal obra já não está mais tendo o objetivo de comunicar o incomunicável. A confusão, da qual vocês que interpretam Lynch procuram escapar, faz parte do pacote máximo de sensações que a obra dele pode produzir, faz parte do potencial de genialidade dele. É lindo não entender, não poder/precisar montar o quebra-cabeça, até porque não é um quebra-cabeça (e os nossos sonhos, pelo menos os meus, não são fora de ordem). Eu já li também que os argumentos dele são lineares e simples, mas, na hora de transformá-lo em filme, ele vai pelo fluxo de (in)consciência, ele não pretende que tudo faça sentido lá pela oitava fruição do filme. Se há intenção em algum momento, ela é inconsciente, resultado de uma catarse, de uma espécie de meditação, e a sua fruição, da mesma forma, é catarse e meditação, é deixar fluir aqueles sentimentos dentro de nós. Mas vou parar por aqui, porque, se o David Lynch viesse nos "julgar", provavelmente ele diria que os dois estamos errados, hehe.

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