A paixão é intensa e instante.
"Sabe aquela emoção que enche o peito, faz ferver o sangue, palpitar o coração? Aquele sentimento que dá vontade de sair dançando e cantando 'Singing in the rain' no meio da rua? Sabe? Pois é. Isso não é amor, não. Pode ser muita coisa boa, menos amor. Talvez seja paixão, desejo de se fundir no outro, surto emocional ou até mesmo uma mistura explosiva de tudo isso. Amor não é. Prefiro dizer isso logo de cara porque muita gente já confundiu esses sentimentos, e não são poucos os poetas, compositores, dramaturgos e cineastas que insistem em chamar de amor essa sensação embriagadora. O amor de verdade, no entanto, começa depois do The End e é menos atormentado e impulsivo. Em compensação, é mais forte e profundo.
"E, já que estamos limpando o terreno, é bom avisar também que amor de verdade é coisa rara e difícil de ser vivida. Mais: ele não acontece por acaso, nem de repente. E dá trabalho conquistar. (...) 'O amor é uma árdua conquista. A paixão, obra do acaso, brincadeira dos deuses', escreveu o psicanalista austríaco Erich Fromm, estudioso do assunto. Enfim, o amor é um sentimento cultivado com paciência, uma escolha que exige nossa participação ativa e consciente. Ele pode nascer da paixão, mas seguramente não possui a mesma natureza instantânea e efêmera. (...)
"Lembra aquele carrinho de rolimã que você adorava? Ele pode ajudar a entender o que é o amor - e o que não é. Durante horas, você colocava graxa nas rodinhas, lixava a madeira, colava adesivos, pintava faixas onde apoiava o peito, tudo para depois descer como um bólido no meio da rua, trepidando no asfalto, com aquele barulho ensurdecedor nos ouvidos, sentindo pela primeira vez na vida o gosto da velocidade.
"Naquela época, você poderia jurar que amava aquele carrinho de rolimã, que ele era a coisa mais importante da sua vida (as garotas menos aventureiras podem adaptar o exemplo para suas bonecas). Se dissesse que não saberia viver sem ele, estaria sendo sincero.
"Talvez você nunca tenha parado para pensar por que 'amava' tanto seu carrinho de rolimã. Mas a razão é bem simples: porque ele dava prazer. Ali estava Eros, o impulso em direção ao prazer, estimulando o 'amor' pelo inocente carrinho. É o mesmo impulso que, mais tarde, fez você se apaixonar por um hobby, uma profissão, uma motocicleta ou pela namorada ou namorado. Eros é o impulso para a vida. É ele que nos leva a fazer o que nos dá prazer uma, duas, três, quantas vezes for bom. Em outras palavras, Eros é o motorzinho que faz girar o mundo. Essa foi uma das maiores descobertas do doutor Sigmund Freud, que rebatizou o deus grego do amor de 'libido' e estudou seu efeito surpreendente no comportamento de homens, mulheres e crianças. Eros é a paixão, o desejo do prazer.
"Mas não o amor. 'De todas as concepções errôneas, a mais poderosa e insidiosa é aquela que afirma que paixão é sinônimo de amor - ou pelo menos uma das suas manifestações', diz outro expert desse tema, o médico psiquiatra americano M. Scott Peck, que escreveu o livro A Trilha Menos Percorrida, uma ode aos sentimentos cultivados no dia-a-dia, frutos da atenção e do cuidado. Ou seja, um livro sobre o amor.
"No estado erótico, ou paixão, é você quem interessa. Não importa tudo o que de belo e bom você possa fazer para quem está apaixonado. No fundo, você só está fazendo isso porque quer seu prazer - a qualquer custo. E porque não deseja se arriscar a perdê-lo. Seduzimos para garantir nosso prazer, diz Erich Fromm em A Arte de Amar.
"'É uma troca: o objeto da minha atenção deve ser desejável, sob o aspecto do seu valor social, e, ao mesmo tempo, desejar-me, levando em consideração minhas potencialidades e recursos expostos e ocultos', escreveu Fromm. Assim, segundo ele, duas pessoas se apaixonam quando sentem haver descoberto o melhor objeto disponível no mercado, considerando a limitação dos seus próprios valores cambiais.
"Em resumo, de acordo com o que sou e tenho é que vou medir o outro. Se ele for aprovado em relação ao que acho de mim mesmo e se eu não for muito medroso ('é muita areia para meu caminhãozinho'), sou sério candidato a me apaixonar. Ou, mais cruamente, a me sentir atraído por alguém capaz de satisfazer meus desejos. (...)" (Liane Alves/Vida Simples)
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