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domingo, 2 de abril de 2006

Cada um na sua
Quando você pensa primeiro em si mesmo e se cuida, cria melhores condições para ajudar os outros
por Eugênio Mussak
(Revista Vida Simples)

Dois homens inteligentes dialogam, e a conversa chega a um tema complexo: motivação. Um dos homens é Friedrich Nietzsche, o polêmico filósofo alemão, e o outro é Josef Breuer, famoso clínico vienense que foi professor de Sigmund Freud, o pai da psicanálise. Nietzsche, um homem muito doente, quer saber por que o doutor Breuer insiste em cuidar dele apesar dos fracassos anteriores. Pergunta ao médico o que o motiva a continuar insistindo no tratamento.

- É uma questão simples, professor Nietzsche. A pessoa pratica sua profissão: um costureiro costura, um cozinheiro cozinha e um clínico clinica. Ganha-se a vida, pratica-se sua profissão, e minha profissão é servir, aliviar a dor.

Nietzsche não se dá por satisfeito com a resposta do médico, pois a considera muito simplista, e responde:

- Quando o senhor diz que um clínico clinica, um cozinheiro cozinha ou que a pessoa pratica sua profissão, isso não é motivação, é hábito. O senhor omitiu de sua resposta a consciência, a escolha e o auto-interesse.

Breuer absorve o choque e argumenta:

- Por que então o senhor filosofa? Não seria essa sua profissão?

- Mas eu não alego que filosofo para o senhor, e sim para mim mesmo, enquanto o senhor continua fingindo que sua motivação é servir-me, aliviar a minha dor. Disseque suas motivações mais profundamente e achará que jamais alguém fez algo totalmente para os outros. Todas as ações são autodirigidas, todo serviço é auto-serviço, todo amor é amor-próprio. Está surpreso? Talvez esteja pensando naqueles que ama. Cave mais profundamente e descobrirá que não os ama: ama, isso sim, as sensações agradáveis que tal amor produz em você. Ama o desejo e não o desejado!

Trata-se de um diálogo instigante. Ele é fictício, está no livro Quando Nietzsche Chorou (Editora Ediouro), de Irvin Yalom, professor de psiquiatria da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Os dois pensadores-personagens viveram na mesma época, porém nunca se encontraram. Mas o livro é baseado em idéias reais, considerando a filosofia de Nietzsche e os pensamentos de Breuer, que com Freud criou uma nova ciência. E aborda dois dos mais delicados temas do pensamento e do comportamento humanos: o que realmente motiva as pessoas e a questão do egoísmo como algo que pode ser positivo.

(...)

Há o egoísmo ético, aquele que justifica sua existência pela criação da base para o altruísmo, ainda que às vezes inconsciente. Em outras palavras, você terá mais sucesso na tentativa de ajudar o outro se tiver todas as condições para fazê-lo melhor, o que implica você estar bem, inteiro. Ou seja, antes de ajudar o próximo, ajude você mesmo. Se você estiver muito bem, terá mais o que dar ao outro.

. . . a importância de a pessoa se cuidar, exercer o direito de pensar primeiro em si mesma, não como uma manifestação de desprezo pelo outro, mas como exercício da responsabilidade. Cuidar-se tira do outro o peso de cuidar de mais um, além de aumentar a chance de colaborar com o conjunto, pois, afinal, você está bem.

Não, este artigo não é uma apologia ao egoísmo. É, antes, uma reflexão sobre a importância do autocuidado. É um alerta para a responsabilidade que temos, perante nós e perante os outros, de estarmos o melhor possível, em todos os sentidos. Acredite, os outros preferem sua companhia quando você está bem, vendendo saúde, transmitindo otimismo, demonstrando sucesso, transbordando felicidade.

Não se pode fazer outra pessoa feliz. Pode-se, sim, colaborar com ela na construção de sua própria felicidade. Não se dá o que é inalienável, inseparável, intransferível. Como posso dar aquilo que eu não possuo? Não possuo a felicidade, sou possuído por ela, e isso acontece quando cuido do ninho onde ela se acomoda. Esse ninho sou eu. E não há quem possa construí-lo por mim, mas sei que, quando ele é aconchegante e espaçoso o suficiente, acolhe alguém mais, que é atraído por seu conforto. Então posso compartilhar com o outro não a felicidade, mas o ninho que a atraiu, eu mesmo. (...)

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