Eraserhead, Estrada Perdida e Mulholland Drive são praticamente a trilogia perfeita do David Lynch, no sentido que o Carlo Pianta pensou, de que os filmes desse diretor são (como) músicas. Eraserhead teve sua primeira exibição no Brasil ontem, no Cine Santander, em Porto Alegre, numa mostra produzida pela Andréia Vigo, namorada do Muriel Paraboni. Deu tumulto porque a sala só tinha 94 lugares e o batalhão indie todo da cidade queria estar lá dentro. (Detalhe: a primeira sessão do filme, em 1977, em Nova York, teve 25 espectadores.) Durante a exibição, impressionou-me o fato de muitos dos presentes terem rido de cenas do filme que não são nada risíveis. Depois, teve o debate com o psicanalista Abrão Slavutsky, o cinéfilo Thomaz Albornoz e o que-não-disse-o-que-era Marcus Mello. Este se baseou, provavelmente, num estudo do Intercom. Ele observou que o Lynch une o suspense de poucas palavras do Alfred Hitchcock com o surrealismo do espanhol Luis Buñuel, que realizou, com o artista plástico surrealista Salvador Dalí, o filme Cão Andaluz. "Escrevemos este roteiro em menos de uma semana e seguimos uma regra muito simples: não aceitar idéia ou imagem alguma que pudesse dar lugar a uma explicação racional, psicológica ou cultural. Abrir todas as portas ao irracional. Não admitir nada além das imagens que nos impressionavam, sem tratar de averiguar por que." Já o psicanalista, antes de comparar interessantemente o caos dos filmes com o caos da mente humana, começou citando um diálogo do Eraserhead:
- O que você me conta?
- Eu não sei quase nada de nada.
Mesmo assim, os dois tentaram, contradizendo a si mesmos, explicar os filmes do David Lynch, o que me deixava com cada vez mais dor de barriga. O Marcus chegou a dizer que o mais importante é o que um filme tem a dizer, coisa que não se aplica de forma alguma, na minha opinião, ao cinema do Lynch. Nas palavras do próprio cineasta: "Para algumas pessoas, a idéia de que a vida é desprovida de sentido é simplesmente apavorante." (Mais informações sobre o cara, neste meu post antigo.)
No entanto, a Manuela me disse uma coisa importante: "Eu não quero saber o que o diretor pensa, eu quero saber o que eu senti com o filme."

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