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sexta-feira, 23 de agosto de 2002

No metrô da volta do trabalho anteontem eu não dormi porque não consegui sentar num lugar em que pudesse encostar a cabeça. Então fiquei olhando uma menininha de cinco meses no colo da mãe desdentada. Sei que era menininha porque usava roupas com cores em tons de vermelho. Ela babava bastante e sorriu para flores de plástico no colo da mulher sentada aos seus 90º. Eu estava sentado atrás da mulher das flores de plástico e acho que a menininha uma hora me viu e eu sorri. Na verdade muitos sorriam para ela e passavam por ali para dar a sua olhadinha. Os adultos amam os bichinhos e as criancinhas porque estes são tudo aquilo que aqueles deixaram de ser. Muitos atribuem a morte do espírito à exigência de responsabilidade e de trabalho da idade adulta. Confundem idade adulta com adultez. Adultez mórbida. Mas nem é preciso dizer que a real causa é o Grande Pensamento Universal. Aquele que as pessoas acoplam aos seus cérebros para não precisarem pensar e não sofrerem desafios sociais de coragem em defesa de si mesmo como uma pessoa separada fisicamente das outras e da Massa. Eu olhava para a menininha com expressão que os outros devem ter classificado como de pai bobo.

Mas uma hora a mãe desdentada desceu com a menininha de cinco meses. No lugar delas sentou uma pessoa que eu não soube o sexo, mas que era muito bonita. Eu não pude parar de olhar. (Eu estava com sorte, aquele lugar era um bom lugar.) Mesmo se fosse um cara. Eu não tinha nada a perder. Olhava bastante também para tentar saber qual era o sexo. Tinha um rosto simples e bonito. O cabelo era curto, um pouco volumoso e desgrenhado. Usava uns colares com pecinhas de madeira. A blusa de lã não era colada e por isso não dava saber se ela tinha seios. As mãos e o jeito de mexê-las eram femininos, mas isso não quer dizer que fosse uma menina. A calça e o casaco que ela vestiu quase na hora de descer também eram femininos, mas idem. Ela não ficou me olhando também, ou por não ter me notado, ou por não ter dado importância, ou por timidez, ou por desinteresse, ou porque era um cara. Usava uma mochila grande e caída nas costas e demonstrava certo problema de auto-estima pela postura de todas as partes do seu corpo. Desceu na Estação Unisinos, onde eu desci, pegou o mesmo ônibus que eu até a universidade, mas dentro dele eu não a vi mais. Daria para comparar com o personagem da Mila Jovovic no Million Dollar Hotel, o rosto, o cabelo e o espírito de pés nus, descalços. Mas talvez fosse mais bonita. Ou bonito.

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