Escola sem partido (parte dois) - Leandro Karnal
(...) A neutralidade é um desejo e uma meta, jamais realizável na sua integridade. Todo cientista, todo saber, todo profissional deveria buscar a maior isenção pessoal possível e eliminar a maior quantidade da sua subjetividade possível. Neutralidade é uma meta. Todo ser humano nasce em uma inserção histórica, tem uma renda específica, uma orientação religiosa, uma identidade étnica, uma orientação sexual, uma visão de mundo e uma língua materna. Ele sempre expressará algo a partir de tal realidade. A língua não é neutra e o conhecimento não é neutro. (...) Se pensarmos em verdade como a parte cognoscível do real, entre mim e o real existe um sujeito e toda mediação implicará um sujeito que é mutável e histórico.
Vamos pensar por exemplos. (...) Quando dizemos que o juiz deve ser imparcial/neutro no julgamento, significaria que ele não parte de um pressuposto anterior, todavia segue uma busca de justiça que pode favorecer ou não o réu. Isso implica dizer que o juiz determina que o sistema legal maior e seus dispositivos constitui um grau maior de objetividade (ou de menor subjetividade a partir de regras conhecidas) do que as envolvidas no litígio. A subjetividade jurídica serviria para equilibrar as subjetividades das partes do processo. A questão maior é onde eu coloco meu ideal de subjetividade. Legisladores com opções políticas e partidárias muito claras elaboraram uma lei subjetiva. O juiz (que também possui opiniões e vivências políticas) deve introduzir nova subjetividade diante das duas subjetividades das partes envolvidas.
Sempre é importante lembrar: todo juiz de futebol torce para um time. Seu objetivo é, ao apitar um jogo, evitar o máximo possível que suas subjetividades interfiram demais na subjetividade das regras do futebol. E de novo: objetividade é desejável; jamais realizável em padrão total.
Quando eu utilizo a palavra "ideologia" (exemplo: "o ensino de tal professor é ideológico") eu parto de um conceito de que ideologia seria a distorção de um dado real a partir de uma subjetividade prévia. Ora, toda fala, ensino, texto ou posição é fruto de um conjunto de crenças e vivências anteriores.
A língua possui ideologia prévia ao estipular que o Deus cristão seja grafado com maiúscula e os deuses gregos com minúsculas. A gramática foi, ideologicamente, cristianizada. Quando eu leciono para uma turma de 50 pessoas de diferentes gêneros e digo “Atenção, alunos”, a gramática optou pelo masculino em função de elaborações ideológicas de fundo masculino. Por que o grupo menor numérico (homens) domina sobre o grupo maior (mulheres)? Há ideologia na língua, nas roupas e nas crenças. Quando eu organizo um currículo escolar enfatizando A ou B, faço opções prévias e subjetivas.
Sempre acreditei que a principal função do ensino não seria realizar a plena neutralidade, mas desvendar as ideologias presentes nas ações e discursos nossos e do mundo. (...) Todo recorte apresenta limites. O ideal em uma boa aula não seria a neutralidade (em si já uma ideologia) mas a análise dos andaimes de cada ideologia, a análise da construção do que os alemães chamavam de visão de mundo ou cosmovisão (Weltanschauung). (...)
(...) A neutralidade é um desejo e uma meta, jamais realizável na sua integridade. Todo cientista, todo saber, todo profissional deveria buscar a maior isenção pessoal possível e eliminar a maior quantidade da sua subjetividade possível. Neutralidade é uma meta. Todo ser humano nasce em uma inserção histórica, tem uma renda específica, uma orientação religiosa, uma identidade étnica, uma orientação sexual, uma visão de mundo e uma língua materna. Ele sempre expressará algo a partir de tal realidade. A língua não é neutra e o conhecimento não é neutro. (...) Se pensarmos em verdade como a parte cognoscível do real, entre mim e o real existe um sujeito e toda mediação implicará um sujeito que é mutável e histórico.
Vamos pensar por exemplos. (...) Quando dizemos que o juiz deve ser imparcial/neutro no julgamento, significaria que ele não parte de um pressuposto anterior, todavia segue uma busca de justiça que pode favorecer ou não o réu. Isso implica dizer que o juiz determina que o sistema legal maior e seus dispositivos constitui um grau maior de objetividade (ou de menor subjetividade a partir de regras conhecidas) do que as envolvidas no litígio. A subjetividade jurídica serviria para equilibrar as subjetividades das partes do processo. A questão maior é onde eu coloco meu ideal de subjetividade. Legisladores com opções políticas e partidárias muito claras elaboraram uma lei subjetiva. O juiz (que também possui opiniões e vivências políticas) deve introduzir nova subjetividade diante das duas subjetividades das partes envolvidas.
Sempre é importante lembrar: todo juiz de futebol torce para um time. Seu objetivo é, ao apitar um jogo, evitar o máximo possível que suas subjetividades interfiram demais na subjetividade das regras do futebol. E de novo: objetividade é desejável; jamais realizável em padrão total.
Quando eu utilizo a palavra "ideologia" (exemplo: "o ensino de tal professor é ideológico") eu parto de um conceito de que ideologia seria a distorção de um dado real a partir de uma subjetividade prévia. Ora, toda fala, ensino, texto ou posição é fruto de um conjunto de crenças e vivências anteriores.
A língua possui ideologia prévia ao estipular que o Deus cristão seja grafado com maiúscula e os deuses gregos com minúsculas. A gramática foi, ideologicamente, cristianizada. Quando eu leciono para uma turma de 50 pessoas de diferentes gêneros e digo “Atenção, alunos”, a gramática optou pelo masculino em função de elaborações ideológicas de fundo masculino. Por que o grupo menor numérico (homens) domina sobre o grupo maior (mulheres)? Há ideologia na língua, nas roupas e nas crenças. Quando eu organizo um currículo escolar enfatizando A ou B, faço opções prévias e subjetivas.
Sempre acreditei que a principal função do ensino não seria realizar a plena neutralidade, mas desvendar as ideologias presentes nas ações e discursos nossos e do mundo. (...) Todo recorte apresenta limites. O ideal em uma boa aula não seria a neutralidade (em si já uma ideologia) mas a análise dos andaimes de cada ideologia, a análise da construção do que os alemães chamavam de visão de mundo ou cosmovisão (Weltanschauung). (...)

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