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quinta-feira, 24 de abril de 2014

Itamar Melo: "E se fechássemos a Mauá?"

Favorecer a circulação de automóveis na área central de Porto Alegre representa, para o cidadão motorizado, uma enorme facilidade de chegar à região. Também significa que esse cidadão chegará com enorme facilidade a uma região onde não valerá tanto a pena ir. Onde o carro reina, a cidade agoniza.

Para quem estiver disposto a enxergar, o Centro é a ilustração perfeita desse fenômeno. Um bom exemplo é a Avenida Mauá. Velhas fotos em preto e branco revelam que aquela era uma zona valorizada e efervescente, tomada de pedestres. Então alguém teve a brilhante ideia de abrir uma via expressa à beira do Guaíba, atravessando o Centro de uma extremidade à outra. Os automóveis passaram a ser despejados ali aos milhares e em alta velocidade.

Não dá para se surpreender com as consequências. A poucos passos da orla, com uma das melhores vistas que Porto Alegre é capaz de oferecer (a partir do segundo ou terceiro andar, naturalmente), a Mauá tornou-se o lugar onde ninguém quer pôr os pés e onde ninguém sonha em ter endereço. A profusão de carros afugentou as pessoas da calçada estreita, e os prédios viraram uma sucessão de portas fechadas ou concretadas, uma espécie de pátio dos fundos da cidade. A Mauá talvez seja a única via de Porto Alegre onde praticamente todos os edifícios estão pichados — porque não há gente na rua para inibir a ação dos vândalos.

Se os carros da Mauá tivessem destruído apenas a Mauá, até poderíamos nos conformar. Mas o impacto se espraiou por ruas próximas, onde não se vê pedestre, e afetou também o cais do porto. Diferentemente do que que se pensa, não é o muro que separa e afasta a cidade do Guaíba. É a avenida barulhenta, movimentada e com cheiro de fumaça — um muro muito maior e mais intimidativo. E será esse muro feito de carros que impedirá, quando o cais estiver revitalizado, que essa revitalização cumpra o seu papel mais importante: o de espalhar a vitalidade para a zona contígua do Centro.

Outro exemplo do que o carro fez com a zona central pode ser visto nas proximidades da Estação Rodoviária. No passado, aquela área era uma extensão natural e elegante do Centro, como comprovam as elaboradas fachadas dos prédios agora em decomposição na Avenida Voluntários Pátria. O que a matou foi a construção do complexo de túneis e viadutos que hoje facilitam a movimentação de automóveis. Para isso, rasgou-se a zona urbana ao meio e criou-se uma terra de ninguém, com o chamado Centro Histórico de um lado e a zona da Rodoviária de outro. Como no caso da Mauá, o resultado foi a decadência urbana. Quando se fala em zona degradada, aquela é a primeira que vem à mente do porto-alegrense. A atividade econômica que restou ali foi a prostituição.

Com essas considerações, não se está propondo que o automóvel seja totalmente banido do Centro. Mas certamente precisamos nos libertar da linha de pensamento que acabamos absorvendo como uma verdade inquestionável nas últimas décadas e, a partir daí, rever o lugar do carro na cidade. Isso é o que tem sido feito com sucesso em cidades que cometeram os mesmos erros que Porto Alegre, mas que já se deram conta disso. Londres ficou famosa por cobrar pedágio dos veículos que entram na área central. Nova York fechou avenidas de grande fluxo e transformou-as em espaços de lazer, agora dos mais populares entre moradores e turistas — e ao contrário do que se vaticinava, não houve nenhum caos no trânsito. Nos melhores centros urbanos europeus, há vastas zonas reservadas apenas aos pedestres.

Em Porto Alegre, esse princípio cada vez mais arraigado de que as cidades não podem ser pensadas para o automóvel ainda existe apenas no discurso. Continuamos fissurados por avenidas e viadutos — inclusive em locais com enorme potencial para o lazer e o turismo, onde a presença do concreto e do automóvel é uma espécie de veneno. Acabamos de duplicar a Avenida Beira-Rio e estamos construindo um enorme viaduto junto à orla, nas proximidades do estádio do Inter — duas muralhas que vão afastar o cidadão e o Guaíba. Em uma cidade assim, é natural que as calçadas fiquem vazias, e os shoppings, lotados. Para onde mais as pessoas podem ir?

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