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terça-feira, 2 de abril de 2013

Enrique Peñalosa


Há trinta anos, na América Latina, se falássemos de cidades, iríamos falar de necessidades para a sobrevivência. Estaríamos falando de como ter água potável, rede de esgotos, o mínimo do mínimo para sobreviver. Agora já estamos passando para uma segunda etapa: já não são as necessidades para sobreviver, mas sim as necessidades para sermos felizes. Do que necessitamos para sermos felizes? Não basta somente ter água potável, mas sim ter acesso a parques, a atividades esportivas, a atividades culturais.
Como ter um ambiente que seja belo e no qual nos sintamos bem? 
Que seja propício para o desenvolvimento mais pleno de nosso potencial e para a nossa felicidade?

Temos cidades há 5 mil anos, mas automóveis apenas nos últimos 80 anos. E os automóveis deformaram completamente as cidades. Por exemplo, antes dos automóveis, os ricos de uma cidade queriam que suas casas estivessem na via principal da cidade. Bastou chegarem os automóveis e saíram correndo! Abandonaram os centros das cidades, se afastando o máximo possível. As pessoas deixaram de se integrar. Foram se isolando cada vez mais as classes sociais, curiosamente... Acredito que é possível que tenhamos cidades completamente diferentes. Com muito mais verde, com melhores espaços para pedestres, com melhor mobilidade.

O que fizemos nos últimos 80, 100 anos é um enorme erro, que acredito será visto como um grande equívoco na história da humanidade. Claramente, o principal problema das cidades do mundo moderno é que tenderam a estender-se, com baixa densidade, em função do automóvel e suas autopistas. As pessoas vão para cada vez mais longe. E, obviamente, são construídos ambientes nos quais as pessoas precisam do automóvel para comprar um pão, um leite. Nos quais as casas são grandes e consomem muita energia, com ar-condicionado, calefação. Nos quais estamos totalmente dependentes do automóvel.

Mas, por outro lado, é claro que as pessoas não querem viver em um centro urbano tradicional, de cimento, concreto. Não querem uma Hong Kong ou Manhattan. Creio que há a oportunidade de se conceber uma cidade diferente, nova. Por exemplo, por que não pensamos em cidades onde tenhamos centenas de quilômetros de parques lineares? Que pudéssemos atravessar a cidade por meio de parques lineares com 50 metros de largura, com verde? Uma rede de centenas de quilômetros onde as pessoas poderiam locomover-se em bicicletas, sem nenhum risco, em autopistas para bicicletas? Que projetássemos a cidade com redes de vias exclusivas para ônibus, para pedestres e para ciclistas, desde o começo?

O conflito não é somente pelo recurso, mas sim pelo espaço. O recurso mais valioso que tem uma cidade é o seu espaço para circulação. Poderíamos encontrar petróleo e diamantes embaixo de Porto Alegre, e ainda assim não seria tão valioso como este espaço de circulação, este recurso. Portanto, a pergunta é: como dividir este espaço de circulação entre pedestres, bicicletas, transporte público e carros? E esta não é uma decisão técnica. Não existe um nível “natural” de uso de um automóvel em uma cidade. Se houvesse mais espaço para os carros em Nova York ou Londres, haveria mais carros. E se houvesse menos espaço, haveria menos carros. Logo, esta é uma decisão política: como queremos distribuir este espaço?

E, além disso, criar espaços distintos, onde claramente o ser humano viva sem o ruído, sem a ameaça dos veículos motorizados. Espaços totalmente diferentes daqueles que temos hoje. Realmente, acredito que estamos tão, tão, tão equivocados que é quase difícil consertar o que temos, quase nos toca repensá-lo de uma maneira muito diferente. O tema da mobilidade, por exemplo, que é um dos que mais interessa aos cidadãos. A mobilidade é um tema político, não é um tema técnico. Se dermos faixas exclusivas para os ônibus em todas as ruas da cidade nas quais eles passam, em um mês resolvemos a questão da mobilidade de qualquer cidade. Mas é um tema de decisão política.

Se tivéssemos ônibus excelentes, com ar-condicionado, vias exclusivas, limpos, com internet, ruas em boas condições, boas calçadas aos lados. Há muitas mudanças que podemos começar a fazer, já! Há áreas da cidade as quais é possível demolir e refazer, não é? É importante ter clareza de que as cidades não duram para sempre. Vi há pouco um documentário sobre as cavernas de Chauvet, na França, onde há uma arte belíssima, maravilhosa. Claramente, aqueles que pintaram esses cavalos e esses desenhos maravilhosos nas paredes das cavernas de Chauvet eram pessoas sensíveis, inteligentes, com capacidade de abstração. E essas cavernas, esses desenhos têm mais de 32 mil anos. Obviamente, nenhuma das cidades atuais durará 32 mil anos. É possível que nenhum dos edifícios atuais dure 32 mil anos.

Aqui o grande obstáculo para a mudança ainda é a desigualdade. A desigualdade é a principal causa dos problemas. Por exemplo, muitos cidadãos de alta renda da Colômbia e do Brasil sentem-se muito orgulhosos porque sabem utilizar muito bem o metrô em Paris ou Nova Iorque, e lá entram no metrô junto aos cidadãos mais pobres daquela sociedade. Mas jamais entrariam no transporte público de sua própria cidade, junto aos pobres de sua cidade. Isso para eles parece que...

O que necessitamos é de uma cidade que se conceba para integrar todas as classes. Não uma cidade que seja de shoppings. Porque as galerias de compras, os centros comerciais, os shoppings são quase clubes, concebidos para um estrato social, no qual os outros estratos, seguramente, em shoppings de ricos os cidadãos pobres não se sentem à vontade, se sentem mal, ainda que não proíbam sua entrada. Necessitamos de uma sociedade na qual ricos e pobres se encontrem juntos ao andar de bicicleta, em parques, no transporte público, nas atividades culturais. Não estou falando de que não existam ricos e pobres. Estou falando de uma cidade na qual ninguém se sinta inferior, na qual não se sintam excluídos, na medida do possível.

Como latino-americano, vou à Ásia e digo: “Por favor!”. O processo de urbanização mais recente que há no mundo é o da América Latina. Que de 1950 até o ano 2000, basicamente, passou de ser 30, 35, 40, 50% urbano para 80, 90% urbano. Na Ásia, na China, na Índia, e inclusive na África, deveriam observar o que aconteceu na América Latina, não para aprender o que deve ser feito, mas para aprender o que não se deve fazer! Porque se vê tudo aquilo que fizemos tão mal e o seguimos fazendo mal.

Por exemplo, as terras nos arredores da cidade deveriam ser públicas, para poder planejar bem o crescimento da cidade. Não onde um dono de terras decida urbanizá-las, mas sim em lugares ótimos. Em um território ótimo, com grandes parques, com projetos completamente diferentes. Vejo o que está acontecendo na Índia e digo: “Mas, por favor!”. Como é que... hoje já está tão claro o que não se deve fazer. Porque, por exemplo, quando a América Latina estava crescendo, ainda estávamos no “Reino do Carro” e foram feitas cidades para os carros, como Brasília. E estavam sendo construídas estradas em todo o mundo, na Europa, nos Estados Unidos.

Mas, hoje em dia, poderiam ser feitos projetos completamente distintos. Há algo interessante com as cidades. Atualmente, a economia de mercado reina triunfante, a propriedade privada e o capitalismo. E há quase um consenso de que quanto menos intervenha o Estado, melhor funciona a economia. Mas, no caso das cidades, é totalmente o contrário. No caso das cidades, o Estado tem que intervir em tudo. Porque o Estado tem que determinar de que largura são as ruas, as calçadas, de que altura são os edifícios, deveria intervir muito mais nos terrenos urbanos. Uma cidade não pode ser feita sem um mínimo de regras. E são regras subjetivas, porque não há uma norma científica que determine a largura das ruas, das calçadas, a altura dos edifícios. É uma criação artística coletiva.

Os cidadãos podem participar muito mais. Como eles querem que seja a cidade? Mas, obviamente, há que se ter certo conhecimento, tal como para pintar. Para pintar se necessita talento, mas se necessitam certos conhecimentos mínimos de técnica, como se misturam as cores, quais são as consequências. Há coisas que parecem ser, mas que não são. Em Bogotá, tomamos uma decisão interessante. Toda primeira quinta-feira do mês de fevereiro, não há carros na cidade. E isso em uma cidade de 8 milhões de habitantes. É um exercício interessante, primeiramente porque demonstra que, contrariamente ao que pensam muitos, a cidade pode funcionar sem carros.

Desde que não seja uma cidade demasiado ampla, de subúrbios, como nos Estados Unidos, mas uma cidade mais ou menos compacta, como Curitiba, poderia perfeitamente funcionar sem carros. Somente com base em bicicletas, a pé, em transporte público, táxis, ônibus. Este exercício ajuda com que as pessoas comecem a imaginar coisas diferentes. Tivemos mais de 600 projetos enquanto estive na Prefeitura, nos quais cidadãos propunham projetos, os projetavam eles mesmo e eram contratadas organizações da comunidade para a sua construção. Eram pequenos projetos de 40, 50, 60 mil dólares, com organizações comunitárias, mas eu diria que o mais importante era que a obra era a construção da comunidade, era a construção da autoestima.

Como seria se tivéssemos uma varinha mágica? E nós temos a varinha mágica! A varinha mágica chama-se “o tempo”. Pode ser que para um ser humano 100 anos seja muito, mas para a história do mundo 100 anos não é nada. Logo, se conseguirmos ter claro o que queremos, e talvez não o consigamos em 1 ano, em 5 ou em 10, mas seguramente que em 100 ou 200 anos sim. Sempre me chamaram a atenção as catedrais medievais, góticas. Porque levavam 200, 300 anos para serem construídas. Não porque houvesse problemas com as empreiteiras, mas sim porque eram projetadas para que fossem construídas em 100, 200 anos. Então me pergunto: o que, hoje em dia, sonhamos para daqui a 100 anos? Quase nada que não se possa realizar em 5 anos tem importância.

Portanto, temos que nos libertar um pouco e ter um pouco mais de visão de longo prazo, porque creio que nos tornamos extremamente “curto-prazistas”, e todos os nossos projetos, se não se terminam em 5 ou 10 anos, não existem. Creio que temos que nos libertar, nós possuímos esta varinha mágica, e que os jovens tenham claro que eles a possuem.

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