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quinta-feira, 19 de maio de 2011




Pablo Villaça:

Hoje você vai ler várias chamadas do tipo "Diretor Lars von Trier afirma ser nazista"; "Von Trier se identifica com Hitler"; "Von Trier arruína sua carreira"; e por aí afora. Estas manchetes irão até amanhã, quando os portais as substituirão por outras matérias igualmente sensacionalistas em busca de novos cliques e pageviews - e na próxima semana, ninguém mais falará sobre as declarações do cineasta, cuja carreira - adivinhem! - continuará a caminhar normalmente.

É isto que a imprensa faz: mastiga fatos e cospe polêmicas. Na era do ciclo de notícias 24 horas, que exige algo novo para atirar na cara do leitor/espectador a cada 60 minutos, qualquer fato que permita uma reinterpretação controversa assim será reescrito pelos jornalistas. É deprimente, repugnante, odioso, mas previsível.

Para início de conversa, qualquer um que compareça a uma coletiva de Lars von Trier já sabe que ouvirá afirmações potencialmente polêmicas. Isto já virou rotina para um diretor que, deprimido assumido, parece estar sempre na tênue fronteira entre a auto-destruição e a auto-promoção.

Dito isso, vejamos o que o cineasta realmente disse:

"A única coisa que posso dizer é que pensei ser judeu por um longo tempo e era muito feliz em ser judeu. Então conheci [a diretora judia] Susanne Bier e, de repente, não estava mais tão feliz em ser judeu. Isso foi uma piada. Desculpem. Mas acabou que eu não era judeu. Se eu fosse judeu, seria de segunda geração, mas, seja como for, eu realmente queria ser judeu - e então descobri que era nazista porque minha família era alemã. E isso também me trouxe certo prazer. Então, o que posso dizer? Eu entendo Hitler. Acho que ele fez coisas erradas, mas posso imaginá-lo sentado em seu bunker. Eu acho que entendo o cara. Ele não era o que poderíamos chamar de um bom sujeito, mas, sim, eu o entendo bastante e simpatizo com ele. Mas esperem aí! Eu não sou a favor da Segunda Guerra Mundial. E não sou contra judeus. Nem mesmo contra Susanne Bier. Sou a favor deles, mesmo que Israel seja um pé no saco. Como escapo desta última frase? Tá bom, eu sou nazista".




Inácio Araújo:

Assisti ao vídeo inteiro da conferência de imprensa de Lars von Trier em Cannes. Von Trier nazista? Admirador da estética nazista? De Albert Speer? Só quem não viu filme dele pode levar isso a sério. Se estivesse no nazismo e ele fizesse um filme com a câmera balançando daquele jeito ia se entender com a Gestapo direto. E que maluquice é essa do Festival exigir desculpas dele? Está certo, o tempo todo ele sacaneou a imprensa. Sacaneou as atrizes. Deixou a Kirsten Dunst envergonhada.

Enquanto se desenrolava a entrevista ele, visivelmente, bolava na sua cabeça um outro filme. Uma comédia, evidentemente. Dito isso, há uma outra coisa: Lars von Trier é um gênio da publicidade. Quando inventou o Dogma 95 havia uma enorme presença, quase um paredão que a indústria americana havia montado, não passava nada. Pois bem, ele inventou essa história e a Dinamarca se impôs ao mundo. Fez todos aqueles mandamentos, que aliás foram para o espaço já no primeiro filme...

Ele faz publicidade e gozação ao mesmo tempo. Acho que foi a última pergunta da entrevista, que já estava completamente maluca, o cara perguntou se ele achava que Melancholia era um blockbuster. Ele enrolou um pouco e depois disse algo como: acho que é, sim, sabe, nós, nazistas, gostamos de coisas grandiosas. Ah, que belo nazista foram me arrumar.

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