
Joseph Campbell e sua esposa, a bailarina Jean Erdman.
CAMPBELL: O que é o casamento? O mito lhe dirá o que é o casamento. E a reunião da díade separada. Originariamente, vocês eram um. Vocês agora são dois, no mundo, mas o casamento não é senão o reconhecimento da identidade espiritual. É diferente de um caso de amor, não tem nada a ver com isso. É outro plano mitológico de experiência. Quando pessoas se casam porque pensam que se trata de um caso amoroso duradouro, divorciam se logo, porque todos os casos de amor terminam em decepção. Mas o matrimônio é o reconhecimento de uma identidade espiritual. Se levamos uma vida adequada, se a nossa mente manifesta as qualidades certas em relação à pessoa do sexo oposto, encontramos nossa contraparte masculina ou feminina adequada. Mas se nos deixarmos distrair por certos interesses sensuais, iremos desposar a pessoa errada. Desposando a pessoa certa, reconstruímos a imagem do Deus encarnado, e isso é que é o casamento.
MOYERS: A pessoa certa? Como é que se escolhe a pessoa certa?
CAMPBELL: O coração lhe dirá. É preciso que seja assim.
MOYERS: O ser interior.
CAMPBELL: Eis o mistério.
MOYERS: Você reconhece seu outro eu.
CAMPBELL: Bem, não sei, mas há uma luz que cintila e algo em você lhe diz que é essa a pessoa certa.
MOYERS: Se o casamento é essa reunião do próprio com o próprio, com a base masculina ou feminina de nós mesmos, por que é assim tão precário na nossa sociedade moderna?
CAMPBELL: Porque não é encarado como casamento. Eu diria que se o casamento não é de magna prioridade em suas vidas, vocês não estão casados. O casamento significa os dois que são um, os dois que se tornam uma só carne. Se o casamento dura o suficiente, e se você se amolda constantemente a ele, em vez de ceder a caprichos pessoais, você chega a se dar conta de que isso é verdade - os dois realmente são um.
MOYERS: O romance pode se prolongar, no casamento?
CAMPBELL: Em alguns, sim. Em outros, não. Mas o problema, veja, a palavra-chave na tradição trovadoresca é "lealdade".
MOYERS: O que você entende por lealdade?
CAMPBELL: Não trapacear, não trair; manter-se verdadeiro, quaisquer que sejam as provações e os sofrimentos.
MOYERS: Os puritanos chamam o casamento de "a pequena igreja dentro da Igreja". Todo dia você ama, todo dia você perdoa. É um contínuo sacramento - amor e perdão.
CAMPBELL: Bem, a palavra certa, penso eu, é "provação", no sentido próprio, de submissão do indivíduo a algo superior a ele. A verdadeira vida de um casamento, ou de um autêntico caso de amor, está na relação, que é onde você está ["CASA"], também. Você entende o que eu quero dizer?
MOYERS: Não, não está claro para mim.
CAMPBELL: Veja, é como o símbolo yin/yang. Aqui estou eu, aqui está ela, aqui estamos [no todo]. Pois bem, quando eu precisar fazer algum sacrifício, não estou me sacrificando por ela, mas pela relação. O ressentimento em relação ao outro é sempre negativo. A vida está na relação, é nela que a sua vida está, agora. Isso é que é o casamento; ao passo que, num caso de amor, você tem duas vidas vivendo uma relação mais ou menos bem-sucedida, por algum tempo, enquanto isso parecer agradável.

Um comentário:
Esse foi meu primeiro highlight do livro. Confesso que usei por algum tempo como uma quase cantada.
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