VOCÊ NÃO É PERFEITO
Elisa Correa/Vida Simples
Julho de 2008
(...) Como bons consumidores, também medimos nossos relacionamentos pela satisfação. O sociólogo inglês Anthony Giddens deu até nome para esse novo tipo de relação, "amor confluente", que substituiu a velha idéia romântica do amor exclusivo até que a morte nos separe. As relações de amor confluente duram apenas até quando - e nem um dia a mais - dura a satisfação de cada um dos envolvidos.
Enquanto Giddens vê essa mudança das relações como libertadora, Zygmunt Bauman acredita que, hoje, os relacionamentos são considerados como coisas a serem consumidas e não produzidas e, desse jeito, ficam submetidos aos mesmos critérios de avaliação de outros objetos de consumo. No livro 'The individualized society' ('A sociedade individualizada', sem edição brasileira), Bauman adverte que, se o parceiro é visto pela ótica do consumo, não é mais necessário para o casal fazer funcionar o relacionamento, garantir que ele sobreviva aos altos e baixos, fazer sacrifícios para que a união dure. Basta procurar um relacionamento novo e melhor no mercado quando o velho não der mais a satisfação esperada e o prazer prometido. (...)
Por isso, antes de sair porta afora mais uma vez, talvez seja bom refletir: se você está sempre à procura da pessoa certa, se termina um relacionamento atrás do outro e ainda sonha com a mais perfeita das criaturas, é melhor se perguntar o que anda acontecendo. Com você. Com seu jeito de estar nas relações. O psicólogo Dalmo Silveira de Souza lembra que, antes de tudo, é preciso desenvolver o autoconhecimento: "Não criar falsas expectativas sobre o que o outro pode dar e sim se responsabilizar por seu jeito de ser. Quando desenvolvo consciência do meu padrão de funcionamento, posso deixar de procurar ou depositar no outro o que é meu."
Perfeição de massa
Ver o mundo através das lentes do consumo nos faz exigir sempre o melhor, não importa se de um produto, de um relacionamento, de um emprego ou das pessoas que amamos. E, como o feitiço também vira contra o feiticeiro, de nós não exigimos menos que a excelência. A coisa é tão séria que virou fobia. Quem sofre de atelofobia tem medo da imperfeição. E também tem ansiedade crônica. Porque é difícil viver em uma sociedade onde o sofrimento, a tristeza, os defeitos e as fraquezas não são mais tolerados.
A indústria oferece soluções para qualquer tipo de problema e para todos os tipos de bolso: receitas para o sucesso nas prateleiras das livrarias; pílulas da felicidade na farmácia da esquina; o corpo dos sonhos em troca de cheques a perder de vista. Bem-vindos. Esses são os tempos da perfeição de massa, onde os defeitos são vistos como erros da natureza que podem ser corrigidos, deletados, deixados para trás. Dentes desalinhados e pés chatos, olhar estrábico e orelhas de abano, escoliose e miopia, verrugas salientes e septos desviados são coisas do passado. (...)
Aceite suas falhas
Corremos o risco de deixar de ser aquilo que somos para nos transformarmos em um corpo sem marcas, sem história, sem humores. Em mera imagem. Se não é bem essa sua intenção, experimente olhar o mundo através de lentes não viciadas em cânones ou padrões. Lentes que permitam enxergar tudo de forma sistêmica, onde não existe certo e errado nem perfeito e imperfeito. Se tudo depende do contexto e do observador, pare e olhe para você. Mas olhe profundamente. Lembre o que disse uma vez Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço: "Quem olha para fora sonha. Quem olha para dentro desperta."
(...) Porque pode ser nos defeitos que você insiste em esconder que se expresse sua personalidade. A imperfeição rejeitada pode ser sua marca registrada, aquela que faz com que você seja reconhecido e lembrado. Anular as imperfeições é como matar as diferenças. É como subscrever um abaixo-assinado contra o estilo, a atitude, a essência. Contra toda e qualquer idéia independente sobre beleza. (...)
***
Leitura relacionada recomendada: conto 'Sinal de nascença', do livro 'É claro que você sabe do que estou falando', da Miranda July.
|
|
http://soundcloud.com/input_output |
:: trabalho artístico :: projeto musical input_output | desenhos | fotografia instagram | fotografia flickr | pesquisa de discos | pesquisa de filmes | programa podcast musical ::
:: catarses musicais inativas :: hotel | blanched | o restaurante | homem que não vive da glória do passado ::
:: no pé da página :: currículo | discografia ::
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Um comentário:
"Um relacionamento baseado no amor confluente pressupõe a reciprocidade na doação e no recebimento emocional. Os parceiros precisam estar em igualdade de condições para manifestar preocupações e necessidades em relação ao outro, o que os torna vulneráveis a esse outro. Os homens apresentam uma maior resistência a essa condição de vulnerabilidade, em parte devida às coações que sofreram durante o período romântico. No entanto, a partir do momento em que este estado vulnerável é reconhecido, por homens e mulheres, tornam-se visíveis os avanços trazidos pelo amor confluente na superação da dicotomia de gênero" (Quando amar é um problema: uma etnografia sobre o amar demais, de Juliana Brizola)
Postar um comentário