SERÁ QUE JÁ FOI MAIS FÁCIL?
Por Dulce Magalhães
É muito comum ouvir que no passado a vida era mais fácil, mais tranqüila, mais próspera, era mais simples de se conseguir as coisas. Será mesmo? As frases costumam começar assim: 'No meu tempo...' e por aí vão desfiando uma infinidade de qualidades sobre o passado. Alguns balançam a cabeça desconsolados e comentam: 'Os jovens de hoje não têm jeito', ou então, 'bom mesmo foi a minha infância, em que as crianças costumavam subir em árvores'. É um fato da vida que as mudanças trazem, bem... mudanças. Não se pode esperar que algo fique igual 'para sempre'. Pode até haver perdas nisso, afinal tudo tem vantagens e desvantagens. A questão é que não dá para entrar em conflito com a realidade – ao contrário, precisamos nos aliar a ela para poder modelá-la.
A questão essencial aqui é que o passado muitas vezes parece não ter defeitos ou dificuldades quando comparado com o presente. Será um simples caso de perda de memória ou algum outro mecanismo nos impede de perceber a vida de uma forma mais ampla? Na medida em que é superada, qualquer dificuldade do passado parece menor do que aquelas do presente. Isso é natural. De fato, quanto mais avançamos na vida, mais encontramos elementos desafiadores. E superar um a um faz parte da caminhada. Não podemos julgar o passado com o nível de consciência que temos hoje. Afinal, a pessoa que fomos no passado vivia outra realidade, outras possibilidades e vivia num outro nível de consciência. Nem deveríamos tratar o passado como 'nosso', pois é um mecanismo da mente que faz com que percebamos a vida como uma história linear. Mas a vida é a múltipla soma dos instantes e, por isso, deveríamos ver cada instante como único e impossível de ser comparado com qualquer outro.
Ao falarmos de nosso passado, em vez de dizer 'eu fiz tal coisa', seria mais correto dizer 'aquela pessoa fez tal coisa', 'aquela mulher...', 'aquele homem...', 'aquela criança...'. Seria uma forma saudável de perceber a passagem do tempo, compreendendo que somos diferentes a cada instante. Como a história é fruto do instante e da capacidade que temos para lidar com ele, é preciso desenvolver a capacidade de se tornar observador de si mesmo, sem se identificar com a história. Assim, não haverá mágoas, arrependimentos ou insatisfações - tanto em relação ao passado quanto em relação ao agora.
Precisamos deixar de ser quem 'fomos' para nos tornarmos, verdadeiramente, quem 'somos'. O passado não é melhor nem pior do que o agora, é apenas diferente, outra coisa, outra história e não pode servir de medida para julgar o momento. No máximo, poderá servir de referência para balizar as oportunidades e vocações. Contudo, nem mesmo os erros do passado poderão servir de medida para os desafios do presente. Se usássemos isso como medida de nossas decisões, ao cair de bicicleta uma vez deixaríamos de tentar aprender a andar de bicicleta. Precisamos cometer alguns erros para chegarmos aos acertos.
O que fundamenta a experiência não é a história, mas a consciência que ganhamos sobre nós mesmos e sobre nossas escolhas. Isso faz com que ativemos a coragem, acionemos a audácia, empreendamos com ousadia e criemos o novo, que precisa ser diferente do antigo. Só assim, o passado pode nos mostrar o quão novo é o presente – ou não. Nada se repete. Os erros podem ser parecidos, mas não são os mesmos. São outros erros, baseados na mesma estratégia, pensamento e valores. Nossas células são outras, nossas histórias são outras, os momentos também são diferentes e as pessoas não se congelam num mesmo rótulo – por mais que a gente insista em mantê-las na restrita área do nosso julgamento.
A vida pode ser uma aventura perene se formos capazes de nos transformar em uma nova pessoa e nos libertar do casco criado pelo passado. O agora é o espaço da reinvenção. Então, recrie a si mesmo, componha sua versão para este tempo, este instante. Que seja sempre a melhor de todas. (Fonte: Revista Amanhã, nº 243, Ano 22, junho de 2008.)
PS (nota minha): Até porque o presente também ele vai virar um passado saudoso para quem tem esse tipo de pensamento.
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quinta-feira, 24 de julho de 2008
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Um comentário:
bingo! e livre-se da ideia de que vc ou a vida pode ser melhor. nao busque o melhor, busque seguir.
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