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segunda-feira, 28 de julho de 2008

José Saramago, na Redenção, em 2005:

"Tenho uma má notícia para lhes dar. A má notícia que tenho a vos dar, sobretudo depois de ter escutado os nossos amigos que falaram antes de mim, é que eu não sou utopista. E a pior notícia ainda é que que considero a utopia, ou o conceito de utopia, não só inútil como também tão negativo como a idéia de que, quando morrermos, todos, vamos ao paraíso. (...) Há uma condição que é indissociável do pensamento utópico, o modo do ser humano de olhar a vida, e não só no sentido material, mas na dimensão espiritual, na dimensão ética, na dimensão plural, que é a reinvenção do desafio. (...) Para as 5 milhões de pessoas que vivem na miséria, a palavra utopia não significa rigorosamente nada. E também não significará muito depois de que tenham suas necessidades essenciais satisfeitas, que passem também a usar ou a divulgar ou a utilizar um discurso mais ou menos emotivo da palavra utopia, como se isso viesse a acrescentar algo àquilo que foi conquistado com trabalho, com luta. (...) Quixote não era utopista, mas um pragmático no melhor sentido da palavra. (Vivia um mundo do qual ele estava farto, enloqueceu e inventou uma paixão, depois voltou a ser Alonso Quija, e volta ao início da alma humana, com a qual temos que viver e aceitar). Quem nos garante que estaremos ainda cansados do que hoje estamos cansados no futuro? (...)

"As palavras são umas desgraçadas e podemos fazer delas tudo aquilo que queremos. Por isso, um político português que esteve aqui há poucos dias disse que política é a arte do possível. Pois eu disse há alguns anos que política é a arte de não se dizer a verdade. Sabemos que os políticos, em grande parte, mesmo quando não fazem um discurso para esconder, para não dizer a verdade, fazem um discurso que comumente falseia, deturpa, condiciona e manipula. (...) Quando eu vos digo que não sou um utopista e que até admiti, com toda franqueza, que me desagrada o discurso sobre a utopia, é porque o discurso sobre a utopia é o discurso do não-existente. Toda gente sabe que a utopia é um lugar que está em um lugar qualquer e que, portanto, não se sabe, não se conhece o destino, também não se sabe o caminho para lá chegar. (...) O grande equívoco que temos é imaginar que aquilo que nós precisamos hoje, mas que não podemos ter por faltar-nos meios de todo tipo, devemos colocar para ter em um futuro. Isso se esquece de um pormenor muito simples, vamos imaginar que aquilo que nós desejare-mos ou desejaríamos ou desejamos ou estamos desejando agora mesmo, seja talvez realizável no ano 2043. Vamos imaginar isso. Não, não, de 2043 estamos muito perto, vamos imaginar que precisamos de mais 100 ou 150 anos para que nosso desejo seja possível de realização. Quem é que nos garante que as pessoas que então estejam no mundo, os vivos de então, descendentes nossos, daqui a 150 anos, porque nenhum de nós estará vivo para ver, quem é que nos garante que eles estarão interessados naquilo a que nós agora estamos interessados? Quem é que nos garante isso? (...)

"Em vez de discutir a utopia, se há uma coisa que a esquerda está mais necessitada é de uma revisão rigorosa e criteriosa dos conceitos. Pois, como eu disse antes, as palavras são umas desgraçadas, não podem resistir. A palavra é uma coisa que está ali para ser utilizada quando nos parece. E o pior de tudo é que se pode usar a mesma palavra para dizer coisas não só diferentes, como muitas vezes frontalmente contrárias. Por isso é que eu digo que nós, a esquerda, deveríamos nos dedicar a rever o conceito de esquerda. Que é esquerda hoje? Donde está? Está aqui? Claro que sim, claro que sim que está aqui. Mas, na esfera política, muita gente fala da esquerda, como, para voltar a uma frase muita conhecida, invocar o santo nome de Deus em vão. (...) Eu tinha dito que iria propor tirar a palavra utopia do dicionário. Mas, enfim, não vou a tanto, deixe ela lá estar. Deixe ela estar, até porque ela está quieta. O que eu queria dizer, amigos, é que há uma outra questão que tem de ser urgentemente revista. Tudo se discute neste mundo, menos uma única coisa que não se discute. Não se discute a democracia. A democracia está aí, como se fosse uma espécie de santa no altar, de quem já não se espera milagres, mas de quem está aí como uma referência. Uma referência é a democracia. E não se repara que a democracia em que vivemos é uma democracia seqüestrada, condicionada, amputada. Porque o poder do cidadão, o poder de cada um de nós, limita-se, na esfera pública, a tirar um governo de que não gosta e a pôr outro de que talvez venha a se gostar. Nada mais. Mas as grandes decisões são tomadas em uma outra grande esfera e todos sabemos qual é. As grandes organizações financeiras internacionais, os FMIs, a Organização Mundial do Comércio, os bancos mundiais, tudo isso. Nenhum desses organismos é democrático. E, portanto, como é que podemos falar em democracia se aqueles que efetivamente governam o mundo não são eleitos democraticamente pelo povo? Quem é que escolhe os representantes dos países nessas organizações? Os povos? Não. Donde está então a democracia?"

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