
Se o Brasil tivesse uma banda como os Mão Morta, de Portugal... (nem sei o que dizer).
"Reza a lenda que Joaquim Pinto se encontrou com Harry Crosby, baixista dos Swans, durante um concerto da banda americana na cidade de Berlim, em outubro de 1984. 'Tens cara de baixista', terá dito Crosby a Joaquim Pinto. No mês seguinte, Joaquim Pinto comprou um baixo e fundou, em conjunto com Miguel Pedro e Adolfo Luxúria Canibal, os Mão Morta." (Vítor Junqueira)
Depois de dez discos lançados em 24 anos de carreira, eles vêm com um disco que é resultado de um espectáculo que mistura música, teatro, declamação e vídeo - e essa música, ouvida em separado, é a mesma música genial encontrada em qualquer dos discos dessa banda da cidade de Braga. 'Maldoror' é um dos melhores discos de 2008 até agora na minha opinião.
"A partir de 'Os cantos de Maldoror', a obra-prima literária que Isidore Ducasse, sob o pseudónimo de Conde de Lautréamont, deu à estampa nos finais do séc. XIX, os Mão Morta, com os dedos de alguns cúmplices, estruturaram um espectáculo singular onde a música brinca com o teatro, o vídeo e a declamação. Aí se sucedem as vozes do herói Maldoror e do narrador Lautréamont, algumas imagens privilegiadas das muitas que povoam o livro, sem necessidade de um epílogo ou de uma linearidade narrativa, ao ritmo da fantasia infantil – o palco é o quarto de brinquedos, o espaço onde a criança brinca, onde cria e encarna personagens e histórias dando livre curso à imaginação. Em similitude com a técnica narrativa presente nos Cantos, a criança mistura em si as vozes de autor, narrador e personagem, criando, interpretando e fazendo interpretar aos brinquedos/artefactos que manipula as visões e as histórias retiradas das páginas de Isidore Ducasse, dando-lhes tridimensionalidade e visibilidade plástica. O espectáculo é constituído pelo conjunto desses quadros/excertos, que se sucedem como canções mas encadeados uns nos outros, recorrendo à manipulação vídeo e à representação. Como um mergulho no mundo terrível de Maldoror, povoado de caudas de peixe voadoras, de polvos alados, de homens com cabeça de pelicano, de cisnes carregando bigornas, de acoplamentos horrorosos, de naufrágios, de violações, de combates sem trégua... Sai-se deste mundo por uma intervenção exterior, como quem acorda no meio de um pesadelo, como a criança que é chamada para o jantar a meio da brincadeira – sem epílogo, sem conclusão, sem continuação!" (Mão Morta)

2 comentários:
Três citações das minhas preferidas em um único post: os portugueses Mão Morta,m apresentados para mim pelo Jr. Monodia, Swans, que garimpei toda a discografia e Cantos, meu predileto de cabeceira, inspirador de tantos sonhos noturnos terríveis.
Oi, Thiane! Tu e o Jr. são a terceira e quarta pessoas do Brasil que eu conheço que gostam dos Mão Morta. Viva. Eu sempre vi relação deles com os DEOD, inclusive O Restaurante do Fim do Universo ensaiva uma música de cada. Quanto às referências reunidas, não é por acaso: os Mão Morta se inspira(ra)m em Swans e Maldoror é o livro de cabeceira de todos os integrantes da banda, segundo uma entrevista no Bodyspace.net.
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