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quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A velha teoria da sincronicidade do Jung. A Secretaria de Recursos Humanos manda, uma vez por semana, aos servidores da Justiça do Trabalho, um texto para refletir, um boletim chamado "RH + Vida Dá a Dica". Eis o texto desta semana:


"Agora é a hora da virada, a hora de simplificar a vida, de deixá-la mais leve, de dar um re-significado melhor para tudo aquilo que parece ter perdido o sentido." (Marilene Simão Kehdi, escritora e psicóloga)


O QUE O TRÁGICO ENSINA
Márcia Tiburi

"Dentro do catálogo sempre dinâmico que podemos traçar sobre os sentimentos que organizam nossa experiência humana há um bastante novo ao qual precisamos, hoje, prestar atenção. É o sentimento do trágico.

"Os filósofos antigos e modernos falaram basicamente de dois sentimentos, o do belo e o do sublime, o primeiro para explicar nosso agrado diante das coisas que nos dão prazer, o segundo para falar das coisas que nos comovem dando prazer e desprazer ao mesmo tempo. O sentimento do trágico configura um terceiro caminho – que leva em conta a descoberta que fizemos de nossa interioridade misteriosa e que nem sempre é experimentada com prazer ou sofrimento, mas simplesmente como um lugar vazio.

"Os gregos inventaram a tragédia por motivos nada estranhos a quem hoje corre aos cinemas ou cola-se ao sofá à espera de cada capítulo da novela. Aristóteles dizia em sua Poética que o homem tem prazer em ver ações encenadas. Gostamos tanto de teatro quanto de cinema e televisão por motivos que vão além do estético, do mero gosto pela beleza e grandiosidade das peças: elas nos ensinam sobre a vida.

"Aprendemos valores e visões de mundo vendo as obras de ficção. Aprendemos a nos comportar e a entender como a própria vida funciona. À complexa pergunta 'a arte imita a vida', podemos responder que 'sim, ela imita', mas não apenas para repeti-la e sim para melhorá-la ou piorá-la. Na verdade, a arte – seja o cinema, a pintura, seja a instalação (uma forma muito nova de expressão ainda não aceita por todos) – é sempre outra coisa, mesmo que seu papel seja nos ensinar a compreender a própria vida.

"A tragédia antiga tinha por objetivo principal mostrar a relação humana com a morte – o limite intransponível ao qual cada um devia ser atento. Heróis gregos como Édipo, Antígona ou Prometeu, só para citar os mais famosos, agiam sempre sob a ameaça do erro e do engano. Era essa fatalidade do erro, ao qual eram, paradoxalmente, condenados e culpados, que os tornava heróis. Herói era aquele que vivia um conflito maior que tudo o que o ser humano comum pudesse viver e compreender. A essa encenação do conflito, chamava-se tragédia, algo que envolvia tanto o esforço de raciocínio quanto o da sensibilidade.

"Há uma grande diferença entre as concepções da tragédia e o sentimento do trágico. Enquanto os gregos acreditavam em destino, em nosso tempo cremos na liberdade. Claro que sabemos que essa crença não garante a realização da liberdade, mas ajuda a orientar a vida. O sentimento do trágico é moderno. Vivemos um tempo em que não podemos mais acreditar em destino, como se viver fosse obedecer a um roteiro escrito antes de nossas próprias escolhas.

"Mas é um tempo, também, em que estas escolhas não são fáceis. E a dificuldade não vem da quantidade de opções simplesmente, mas do fato de que muitas vezes é o próprio desejo que nos escapa. Nosso desejo só nasce quando podemos superar o desencontro com nossa vida. Sobretudo porque nem sempre temos desejo suficiente para realizar escolhas.

"O sentimento do trágico é a sensação de que o próprio desejo nos falta. O que muitos costumam chamar de 'vazio interior' é a incapacidade de sentir que advém da anestesia geral que organiza nossa sociedade. Devido a tal incapacidade, nos tornamos prisioneiros das ofertas de 'fortes emoções' que, a todo momento, se oferecem aos nossos sentidos como promessas de completude. Atualmente, há a crença de que o vazio será preenchido por algo externo – seja dinheiro, sejam prazeres, sejam mercadorias. Antigamente, as pessoas rezavam. Hoje, cremos que o vazio abstrato será preenchido por objetos concretos que podemos comprar. No fundo, é a esperança – ela mesma, trágica – de que um dia sentiremos algo profundamente, e de que isso terá o poder de mudar nossas vidas.

"No século 19, o amor era associado ao sentimento do trágico. Isso foi antes da invenção dos esportes radicais. O que se chamou de amor romântico sempre teve duas versões. Uma mais leve, associada ao final feliz. Outra, mais obscura, trazia o final infeliz em que a morte, a dor e a traição explicavam o amor como algo impossível, uma felicidade interrompida, um sonho ou pesadelo. O sentimento do trágico se transformou no modo por excelência de viver o amor ou de tentar vivê-lo como limite, como experiência da morte possível. Ele representa, hoje, a vontade de experimentar algo com uma intensidade nunca antes sentida, única possibilidade de livrar-se do vazio. Muitos, porém, simplesmente preferem outros esportes radicais. O efeito, aqui e ali, é sempre o mesmo: a sensação de que a vida foi vivida como tragédia para além do vazio ao qual nos acostumamos. E, no entanto, para a tragédia, a vida só precisaria de mais arte, mais criatividade e imaginação."

* Marcia Tiburi é filósofa, escritora e artista plástica. Integra o programa Saia Justa, do canal de TV a cabo da GNT.

Fonte: Revista Vida Simples. Janeiro/2008, ed. 62.

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