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segunda-feira, 22 de abril de 2019
Programa-073 by Revelações*DouglasDickel on Mixcloud
Programa-075 by Revelações*DouglasDickel on Mixcloud
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019
Yorgo Lanthimos em "Como estragar uma carreira em 10 anos: de vencedor do Un Certain Regard, de Cannes, em 2009, com 'Kynodontas', a campeão de indicações aos Oscars, em 2019, com 'The favourite', incluindo Melhor Atriz para uma atriz que engordou".
Olivia Colman engordou 16 Kg pra ganhar o Oscar... 😑
Olivia Colman engordou 16 Kg pra ganhar o Oscar... 😑
"Estudar o Caminho [de Buda] é estudar a si próprio. Estudar a si próprio é esquecer-se de si próprio. Esquecer-se de si próprio é tornar-se iluminado por todas as coisas do universo." (Dogen Zenji)
"Para muitos, a gênese do ateísmo está na percepção de que o Deus apresentado por alguns religiosos é bem pior do que nós." (Fábio de Melo)
Complemento implícito, por minha conta: 'Mas não é. Somos, nós mesmos, impiedosos. Imagem e semelhança.'
Como eu descobri o plano de dominação evangélico – e larguei a igreja
(Túlio Gustavo/Intercept)
"Em junho de 2009, aconteceria o Congresso Nacional dos 7 Montes, que tinha por objetivo reunir cristãos e lideranças de todos os lugares do Brasil para convocar uma grande mobilização em prol da necessidade de a Igreja ir além das suas quatro paredes para conquistar espaços para o Reino de Deus – o que eles chamaram de '7 montes da sociedade', a saber: 1) artes e entretenimento, 2) mídia e comunicação, 3) governo e política, 4) economia e negócios, 5) educação e ciência, 6) família, 7) igreja e religião. (...) Por convicções pessoais, nunca acreditei que fosse aquele o jeito certo de fazer as coisas na igreja. Era tudo muito roteirizado e com muitas táticas que me faziam sentir estar vendendo alguma coisa ao invés de estar pregando a fé. Incomodava-me muito, principalmente, a rigorosa hierarquia criada entre discípulos e discipuladores. (...) Antes de sair, lembro como fosse hoje o que disse aos pastores: 'Eu tenho certeza que isso vai funcionar. É uma excelente ferramenta de marketing e foi feito pra dar certo. Mas eu não acho que seja isso que Jesus queira que façamos'."
(Túlio Gustavo/Intercept)
"Em junho de 2009, aconteceria o Congresso Nacional dos 7 Montes, que tinha por objetivo reunir cristãos e lideranças de todos os lugares do Brasil para convocar uma grande mobilização em prol da necessidade de a Igreja ir além das suas quatro paredes para conquistar espaços para o Reino de Deus – o que eles chamaram de '7 montes da sociedade', a saber: 1) artes e entretenimento, 2) mídia e comunicação, 3) governo e política, 4) economia e negócios, 5) educação e ciência, 6) família, 7) igreja e religião. (...) Por convicções pessoais, nunca acreditei que fosse aquele o jeito certo de fazer as coisas na igreja. Era tudo muito roteirizado e com muitas táticas que me faziam sentir estar vendendo alguma coisa ao invés de estar pregando a fé. Incomodava-me muito, principalmente, a rigorosa hierarquia criada entre discípulos e discipuladores. (...) Antes de sair, lembro como fosse hoje o que disse aos pastores: 'Eu tenho certeza que isso vai funcionar. É uma excelente ferramenta de marketing e foi feito pra dar certo. Mas eu não acho que seja isso que Jesus queira que façamos'."
“Legítima defesa aplicada à ação policial vai exatamente na contramão da profissionalização das polícias. A polícia tem que ser bem treinada para administrar suas emoções e não agir como cidadão comum”, diz Jacqueline Sinhoretto, da diretoria do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.
"Plea bargain - Em 2017, a revista The Atlantic nos Estados Unidos fez uma longa reportagem sobre como cada vez mais os pequenos delitos não iam mais para o tribunal. Quem decide, no final das contas, a pena do delito passam a ser o promotor e o advogado de defesa, por meio de um acordo. A presunção de inocência acaba indo pro vinagre rapidinho. Se você é acusado de um crime, o promotor vem com a proposta: você assume a culpa e ganha uma pena leve, ínfima até. Mas, se não assumir, o caso vai para o tribunal e o promotor vai pedir pena máxima para o seu crime. Boa parte da população não confia nada no sistema de Justiça - que são justamente os grupos mais vulneráveis, os candidatos preferenciais a população carcerária. Em 2013, a Human Rights Watch publicou um relatório mostrando como o plea bargain é uma violação de direitos constitucionais, gerando sentenças rígidas e injustas. Num país como o Brasil, com a força das milícias, vamos ver outro desdobramento: inocente alegando culpa simplesmente por medo de que criminosos executem ele ou sua família. Diante de tudo isso, por que então colocar o plea bargain na mesa? Simples: números! Sem sobrecarregar o Judiciário, você consegue uma enorme quantidade de sentenças e acaba dando a impressão de que está combatendo a criminalidade." (Fernando L'Ouverture, no twitter)
Dia em que eu nasci: 24
Soma dos algarismos do ano em que eu nasci: 1+9+7+7= 24
Quantidade de anos que faltam para eu me aposentar, se passar a reforma da previdência como está: 24
Multiplicação entre si dos algarismos diferentes de zero do ano em que vou me aposentar (2043), se passar a reforma da previdência como está: 2x4x3= 24
Idade com a qual eu comecei a contribuir para o INSS: 24
Contribuição da amiga Célia Maschmann:
24: o três de paus ou o coração (no baralho LeNormand).
Olhar para fora usando os recursos internos. Capacidade de ação plena, pensamento claro, possibilidades infinitas.
Amor puro, coração limpo, sede de aventura.
UOL – A maneira como a morte passou a ser tratada mudou com o tempo?
Maria Julia Kovács – A grande mudança se processou na passagem do século 19 para o 20, com o desenvolvimento da medicina, principalmente na sua busca de cura e de tratamentos cada vez mais sofisticados. Do ponto de vista médico, a morte passou a ser vista como fracasso profissional. Então, houve a interdição do tema, isolamento de pessoas que estão morrendo em salas e corredores distantes nos hospitais, além da exploração de técnicas que pudessem postergá-la a todo custo. Assim se criou a "distanásia", um processo muito sério de medicalização e prolongamento do processo de morte, que pode vir acompanhado de muito sofrimento.
Qual o lado bom e o ruim de prolongar a vida com os novos tratamentos?
Há benefícios, como permitir que pessoas com o diagnóstico de doenças sem cura vivam por muito tempo e com menos efeitos colaterais. A maior desvantagem é que muita gente não está conseguindo morrer naturalmente. Os maiores prejudicados nesse ponto são os idosos, com doenças crônicas e degenerativas. Eles são submetidos a uma série de intervenções inúteis, porque não se concebe a ideia de que possam morrer. Isso acaba ampliando o sofrimento do doente e de seus familiares, que os vê em situações muito graves, quase mortas, entubadas, sem a possibilidade de se comunicar. Prolongar a vida em UTIs é uma praga moderna.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019
"O segredo para encontrar o nível mais profundo do outro encontrar o nível mais profundo em si mesmo. Sem encontrá-lo em si, você não vai conseguir vê-lo no outro." (Eckhart Tolle)
Não existe nenhum projeto no Brasil dos últimos dez anos tão bem organizado e tão bem sucedido quanto o projeto antipetista. Pra construir, não teve nada. Mas, pra destruir o maior partido de esquerda, a eficiência, a união de forças e o planejamento, desde 2005 (Mensalão), são impressionantes, fenomenais.
"Sempre foi considerada muito enigmática a expressão 'servidão voluntária', porque a servidão é alguma coisa à qual você é submetido contra a sua vontade. Então como é possível uma servidão voluntária? É esse enigma que em um jovem francês do século 16 resolveu enfrentar - ele se chama La Boétie. Ele escreveu um texto que ficou conhecido como 'O discurso da servidão voluntária'. Qual é a originalidade do La Boétie? Na tradição do pensamento político e da filosofia política, os pensadores dedicaram, se não um livro, um ensaio, um parágrafo para falar sobre a tirania. Mas eles sempre focalizaram a tirania a partir da figura do tirano, que é descrito com um homem cheio de vícios, corrupto, mau, dominador, opressor. La Boétie mudou o foco da questão e, em vez de ir ao tirano, ele foi aos tiranizados. Ele perguntou por que os tiranizados aceitam o tirano. A resposta clássica que sempre se deu foi que o tirano tem as fortalezas, tem as armas, tem os exércitos, tem o conjunto das leis e dos juízes na sua mão, ou seja, ele domina toda a sociedade, então você não tem outro jeito senão, por medo ou por complacência, se submeter à ele. Aí o La Boétie diz que, se nós olharmos o tirano, nós vamos ver que ele é um homem como qualquer outro: dois olhos, dois ouvidos, uma boca, duas mãos, dois pés. Como explicar que ele tenha milhões de olhos nos vigiando, que ele tenha milhões de orelhas nos espionando? Como explicar que ele tenha milhões de mãos que nos esganam, milhões de pés que nos pisoteiam? De onde veio esse corpo fantástico do tirano? E ele diz: fomos nós que o demos para ele. Nós demos para ele os nossos olhos, os nossos ouvidos, as nossas mãos, as nossas bocas, os nossos pés, os nossos filhos, a nossa alma; nós entregamos a nossa honra para que ele nos dominasse e fizesse de nós o que quisesse, e é por isso que a nossa servidão é voluntária. Mas a questão é: por que fazemos isso? E a resposta do La Boétie é terrível: porque nós todos somos tiranetes. Cada um de nós, do lugar em que está, quer submeter, dominar e controlar aquele que está abaixo. Portanto, a sociedade inteira é tirânica. A tirania não é um acontecimento que depende do mau caratismo do tirano: ela depende de uma sociedade que está construída tiranicamente pelo desejo de dominar o outro e, portanto, a servidão voluntária tem como causa nós mesmos." (Marilena Chauí)
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Sujeito difícil de lidar: aquele que fica magoado por motivos forçados ou inventados - ou seja, não por sensibilidade, mas talvez por gosto de ser vítima e acusador, talvez por preguiça de ser alguém que não se magoa por motivos forçados ou inventados. É uma postura socialmente defensiva e sabotadora. Hipóteses: "Vou ficar magoado antes que o outro seja o 'autor' da minha mágoa. Só quem me magoa sou eu." Em alguns casos, é utilizada essa tática para culpar o outro pela própria incapacidade de construir uma relação.
"Sei por exemplo que, como bissexual, o subgrupo mais invisibilizado da comunidade LGBT, estou quatro vezes mais propensa a pensar em suicídio do que os heterossexuais e duas vezes mais do que lésbicas e gays, segundo reportagem da Vice. E, como mulher bi, tenho 2,6 vezes mais chances de ser estuprada do que minhas amigas hétero e 3,5 a mais do que as lésbicas. Além disso, segundo um estudo da revista Journal of Public Health, tenho 64% mais chances de ter um distúrbio alimentar do que uma lésbica, 37% a mais de me automutilar e 26% a mais de ter depressão." (Bruna de Lara/The Intercept)
Paola Carosella: "A morte de um jovem negro em mãos de um segurança gera infinitamente menos indignação, revolta e raiva que a morte de um cachorro em mãos de um segurança."
Karol Marques @flambs_: "O princípio é básico: presunção de inocência não existe pro negro e pro pobre. O cachorro é indefeso, o negro tem que provar postumamente que não merecia morrer."
"Não há sentido em conceder privilégios especiais a parlamentares, uma vez que nossa tarefa é representar os cidadãos e conhecer a realidade em que as pessoas vivem. Também pode-se dizer que é um privilégio em si representar os cidadãos, uma vez que temos a oportunidade de influenciar os rumos do país", diz o deputado Per-Arne Håkansson, do partido Social-Democrata.
Até 1957, os deputados do Parlamento sueco não recebiam sequer salário: ganhavam apenas contribuições feitas pelos membros dos partidos.
(...) A decisão de introduzir o pagamento de salário aos parlamentares foi tomada, segundo consta nos arquivos do Parlamento, após chegar-se à conclusão de que nenhum cidadão deveria ser "impedido de tornar-se um deputado por razões econômicas". Mas o valor do salário não deveria "ser alto a ponto de se tornar economicamente atraente".
(...) O erário público paga apartamentos funcionais (a políticos com base eleitoral fora da capital, e que não possuem imóvel próprio em Estocolmo) exclusivamente para os parlamentares. A cônjuges de deputados, familiares e afins, é negado o benefício de morar ou até mesmo pernoitar em propriedade do Estado sem pagar. Se a mulher de um deputado do interior decide viver no apartamento funcional da capital com o marido, cabe a ela arcar com a metade do valor do aluguel.
(...) Também são os próprios parlamentares que cozinham e cuidam da limpeza da casa. Faxina gratuita nos apartamentos funcionais, segundo o setor de administração do Parlamento sueco, só uma vez por ano, durante o recesso parlamentar de verão.
(...) Para o cientista político sueco Rune Premförs, "Representantes políticos devem também ser representantes do povo em termos de não se atribuir condições privilegiadas".
Programa-074 by Revelações*DouglasDickel on Mixcloud
quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
Eliane Brum, como escreve!:
' ' O novo presidente representa, principalmente, o brasileiro que nos últimos anos sentiu que perdeu privilégios. Nem sempre os privilégios são bem entendidos. Não se trata apenas de poder de compra, o que é determinante numa eleição, mas daquilo que dá chão a uma experiência de existir, aquilo com que faz com que aquele que caminha se sinta em terra mais ou menos firme, conheça as placas de sinalização e entenda como se mover para chegar onde precisa.
Vária irrupções perturbaram esse sentimento de caminhar em território conhecido, em especial para o homem branco e heterossexual. As mulheres disseram a eles com uma ênfase inédita que não seria mais possível fazer gracinhas nas ruas nem assediá-las nos trabalho ou em qualquer lugar. A violência sexual foi exposta e reprimida. A violência doméstica, quase tão comum quanto o feijão com arroz (“um tapinha não dói”) foi confrontada pela Lei Maria da Penha. Afirmar que uma “mulher era mal comida” se tornou comentário inaceitável de um neandertal.
Na mesma direção, os LGBTI se fizeram mais visíveis na exigência dos seus direitos, entre eles o de existir, e passaram a denunciar a homofobia e a transfobia. Figuras públicas como Laerte Coutinho anunciaram-se como mulher sem fazer cirurgia para tirar o pênis. O que há entre as pernas já não define ninguém. E a posição de homem heterossexual no topo da hierarquia nunca foi tão questionada como nos últimos anos.
Tanto que, como reação, surgiram proposições como criar o “Dia do Orgulho Heterossexual” ou o “Dia do Homem” e até o “Dia do Branco”. Não faz sentido criar datas para quem tem todos os privilégios, mas as propostas apontam como mesmo a perda destes privilégios em particular parece balançar o mundo de quem sempre teve a coleção completa de vantagens como direito inalienável.
O que a maioria dos homens entendia como direito – falar o que bem entendesse, especialmente para uma mulher – já não era possível. “Não dá para falar mais nada” se tornou uma frase clássica na boca destes homens. As já tradicionais piadas de “viado”, um tema clássico de fortalecimento da identidade de macho, tornaram-se inaceitáveis. O “politicamente correto”, que Bolsonaro e seus seguidores tanto atacaram nesta eleição, foi interpretado como agressão direta a privilégios que eram considerados direitos.
Para um homem pobre, seja ele branco ou negro, tripudiar sobre gays e/ou mulheres na vida cotidiana pode ser a única prova de “superioridade” enquanto enfrenta o massacre diário de uma jornada extenuante e mal paga. Bolsonaro compreendeu isso muito bem. Em seu discurso para a população aglomerada na Praça dos Três Poderes, nesta terça-feira, o presidente recém-empossado colocou o combate ao “politicamente correto” como uma das prioridades do seu governo. Não a assombrosa desigualdade social, que até mesmo presidentes conservadores achavam de bom tom citar, mas a necessidade de “libertar” a nação do jugo do “politicamente correto”.
Logo no início do discurso, Bolsonaro afirmou: “É com humildade e honra que me dirijo a todos vocês como presidente do Brasil e me coloco diante de toda a nação neste dia como um dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, se libertar da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”.
É esse brasileiro “acorrentado” que votou para retomar seus privilégios, incluindo o de ofender as minorias, como seu representante fez durante toda a carreira política e também na campanha eleitoral. Para muitos, o privilégio de voltar a ter assunto na mesa de bar – ou o de não ser reprimido pela sobrinha empoderada e feminista no almoço de domingo.
Somado a isso, as cotas raciais nas universidades, assim como o Estatuto da Igualdade Racial, conquistas dos movimentos negros reconhecidas pelos governos do PT, atingiram fundo os privilégios de raça, tão enraizados quanto os privilégios de classe e de gênero no Brasil, possivelmente mais.
Os negros passaram a não aceitar passivamente ser maioria nas piores estatísticas, ter menos tudo, assim como morrer mais e mais cedo. É desse confronto que vem a frase sem qualquer lastro na realidade, mas repetida com persistência por Bolsonaro e seus seguidores: a de que “o PT inventou os conflitos raciais”. É claro que, enquanto os negros seguissem aceitando o seu lugar subalterno e mortífero na sociedade brasileira, não haveria conflito. Mas esse tempo acabou e até mesmo lugares que pareciam reservados apenas aos filhos dos brancos, como as carreiras mais disputadas das universidades públicas, começaram a ser ocupados pelos negros.
Para as famílias, especialmente as brancas, outra mudança atingiu profundamente um privilégio arraigado que está na formação do Brasil, e que foi pouco alterado pela abolição da escravidão negra. No início da segunda década do século, a “PEC (Proposta de Emenda Constitucional) das Domésticas” deu a essa categoria formada majoritariamente por mulheres, a maioria delas negras, direitos trabalhistas que outras categorias tinham há décadas mas que sempre foram negados a elas, como o limite da jornada de trabalho e o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço). O ódio dos bolsonaristas se expressa não pela ação, mas pela reação: a de quem se defende do que acredita ser um ataque.
Quando Bolsonaro assume o poder, este homem sente que também ele volta a governar um mundo que já não compreendia.
(...) Ao assumir o poder, Bolsonaro mostra que a ordem do mundo volta ao “normal”. Com Bolsonaro, eles voltam também ao Governo de suas próprias vidas, sem serem questionados nem precisarem ser questionados sobre temas tão espinhosos como, por exemplo, a sexualidade e seu lugar na família e na sociedade.
São principalmente homens, mas também são mulheres que sentem que a opressão é um preço baixo a pagar para voltar a um território que, mesmo asfixiante, é conhecido e supostamente mais seguro num mundo movediço.
Como disse Bolsonaro em seu discurso às massas, logo após ser ungido com a faixa presidencial: “Não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade. Podemos, eu, você e as nossas famílias, todos juntos, reestabelecer padrões éticos e morais que transformarão nosso Brasil”.
(...) Como sentiam-se oprimidos por conceitos que não compreendiam, os bolsonaristas descobriram que poderiam dar às palavras o significado que lhes conviesse porque o grupo os respaldaria. E, graças às redes sociais, o grupo os respalda. O significado das palavras é dado pelo número de “curtir” nas redes sociais. Esvaziadas de conteúdo, história e consenso, esvaziadas até mesmo das contradições e das disputas, as palavras se tornaram gritos, força bruta. ' '
' ' O novo presidente representa, principalmente, o brasileiro que nos últimos anos sentiu que perdeu privilégios. Nem sempre os privilégios são bem entendidos. Não se trata apenas de poder de compra, o que é determinante numa eleição, mas daquilo que dá chão a uma experiência de existir, aquilo com que faz com que aquele que caminha se sinta em terra mais ou menos firme, conheça as placas de sinalização e entenda como se mover para chegar onde precisa.
Vária irrupções perturbaram esse sentimento de caminhar em território conhecido, em especial para o homem branco e heterossexual. As mulheres disseram a eles com uma ênfase inédita que não seria mais possível fazer gracinhas nas ruas nem assediá-las nos trabalho ou em qualquer lugar. A violência sexual foi exposta e reprimida. A violência doméstica, quase tão comum quanto o feijão com arroz (“um tapinha não dói”) foi confrontada pela Lei Maria da Penha. Afirmar que uma “mulher era mal comida” se tornou comentário inaceitável de um neandertal.
Na mesma direção, os LGBTI se fizeram mais visíveis na exigência dos seus direitos, entre eles o de existir, e passaram a denunciar a homofobia e a transfobia. Figuras públicas como Laerte Coutinho anunciaram-se como mulher sem fazer cirurgia para tirar o pênis. O que há entre as pernas já não define ninguém. E a posição de homem heterossexual no topo da hierarquia nunca foi tão questionada como nos últimos anos.
Tanto que, como reação, surgiram proposições como criar o “Dia do Orgulho Heterossexual” ou o “Dia do Homem” e até o “Dia do Branco”. Não faz sentido criar datas para quem tem todos os privilégios, mas as propostas apontam como mesmo a perda destes privilégios em particular parece balançar o mundo de quem sempre teve a coleção completa de vantagens como direito inalienável.
O que a maioria dos homens entendia como direito – falar o que bem entendesse, especialmente para uma mulher – já não era possível. “Não dá para falar mais nada” se tornou uma frase clássica na boca destes homens. As já tradicionais piadas de “viado”, um tema clássico de fortalecimento da identidade de macho, tornaram-se inaceitáveis. O “politicamente correto”, que Bolsonaro e seus seguidores tanto atacaram nesta eleição, foi interpretado como agressão direta a privilégios que eram considerados direitos.
Para um homem pobre, seja ele branco ou negro, tripudiar sobre gays e/ou mulheres na vida cotidiana pode ser a única prova de “superioridade” enquanto enfrenta o massacre diário de uma jornada extenuante e mal paga. Bolsonaro compreendeu isso muito bem. Em seu discurso para a população aglomerada na Praça dos Três Poderes, nesta terça-feira, o presidente recém-empossado colocou o combate ao “politicamente correto” como uma das prioridades do seu governo. Não a assombrosa desigualdade social, que até mesmo presidentes conservadores achavam de bom tom citar, mas a necessidade de “libertar” a nação do jugo do “politicamente correto”.
Logo no início do discurso, Bolsonaro afirmou: “É com humildade e honra que me dirijo a todos vocês como presidente do Brasil e me coloco diante de toda a nação neste dia como um dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, se libertar da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”.
É esse brasileiro “acorrentado” que votou para retomar seus privilégios, incluindo o de ofender as minorias, como seu representante fez durante toda a carreira política e também na campanha eleitoral. Para muitos, o privilégio de voltar a ter assunto na mesa de bar – ou o de não ser reprimido pela sobrinha empoderada e feminista no almoço de domingo.
Somado a isso, as cotas raciais nas universidades, assim como o Estatuto da Igualdade Racial, conquistas dos movimentos negros reconhecidas pelos governos do PT, atingiram fundo os privilégios de raça, tão enraizados quanto os privilégios de classe e de gênero no Brasil, possivelmente mais.
Os negros passaram a não aceitar passivamente ser maioria nas piores estatísticas, ter menos tudo, assim como morrer mais e mais cedo. É desse confronto que vem a frase sem qualquer lastro na realidade, mas repetida com persistência por Bolsonaro e seus seguidores: a de que “o PT inventou os conflitos raciais”. É claro que, enquanto os negros seguissem aceitando o seu lugar subalterno e mortífero na sociedade brasileira, não haveria conflito. Mas esse tempo acabou e até mesmo lugares que pareciam reservados apenas aos filhos dos brancos, como as carreiras mais disputadas das universidades públicas, começaram a ser ocupados pelos negros.
Para as famílias, especialmente as brancas, outra mudança atingiu profundamente um privilégio arraigado que está na formação do Brasil, e que foi pouco alterado pela abolição da escravidão negra. No início da segunda década do século, a “PEC (Proposta de Emenda Constitucional) das Domésticas” deu a essa categoria formada majoritariamente por mulheres, a maioria delas negras, direitos trabalhistas que outras categorias tinham há décadas mas que sempre foram negados a elas, como o limite da jornada de trabalho e o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço). O ódio dos bolsonaristas se expressa não pela ação, mas pela reação: a de quem se defende do que acredita ser um ataque.
Quando Bolsonaro assume o poder, este homem sente que também ele volta a governar um mundo que já não compreendia.
(...) Ao assumir o poder, Bolsonaro mostra que a ordem do mundo volta ao “normal”. Com Bolsonaro, eles voltam também ao Governo de suas próprias vidas, sem serem questionados nem precisarem ser questionados sobre temas tão espinhosos como, por exemplo, a sexualidade e seu lugar na família e na sociedade.
São principalmente homens, mas também são mulheres que sentem que a opressão é um preço baixo a pagar para voltar a um território que, mesmo asfixiante, é conhecido e supostamente mais seguro num mundo movediço.
Como disse Bolsonaro em seu discurso às massas, logo após ser ungido com a faixa presidencial: “Não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade. Podemos, eu, você e as nossas famílias, todos juntos, reestabelecer padrões éticos e morais que transformarão nosso Brasil”.
(...) Como sentiam-se oprimidos por conceitos que não compreendiam, os bolsonaristas descobriram que poderiam dar às palavras o significado que lhes conviesse porque o grupo os respaldaria. E, graças às redes sociais, o grupo os respalda. O significado das palavras é dado pelo número de “curtir” nas redes sociais. Esvaziadas de conteúdo, história e consenso, esvaziadas até mesmo das contradições e das disputas, as palavras se tornaram gritos, força bruta. ' '
"Para encontrar-se com 'Jeannette - l'enfance de Jeanne D'Arc' nesse nível, você deverá aceitar a arca de regras de Bruno Dumont: você só poderá achar que o filme é tão belo quanto estranho se você, primeiro, aceitar que há, nele, algo um tanto alienante e orgulhosamente irreal. Talvez você nunca abra mão de sua descrença, porque tudo ali é um pouco áspero, intencionalmente. A única coisa em 'Jeannette' que é imediatamente - e, portanto, tradicionalmente - impressionante é a sua cinematografia (fotografia), e até mesmo ela serve para fortalecer a ideia de que Jeannette está cercada por uma beleza inexplicável. Dumont se recusa a dar aos espectadores uma clara indicação de como eles devem se sentir enquanto veem atores jovens e inexperientes rezando e dançando. Ele meio que desafia - e meio que convida - você a tentar abraçar suas escolhas deliberadamente mistificantes. Assim ele enfatiza o olhar de convicção e o visível esforço nos rostos de seus atores. Ele lhes dá movimentos pequenos e possíveis de realizar, sem que chamem demais a atenção, tipo embaralhar os pés ou fazer headbang. Cada gesto é preciso, mas nenhum se excede. É um jogo realmente misterioso este cuja força vem da certeza absurda de que qualquer momento, seja de uma séria oração (ou do silêncio que a sucede) pode ser interrompido por um intrusivo balido de uma ovelha nas proximidades. Dumont deve ser o único cineasta que faz uma autocrítica a sua própria heroína com barulhos de ovelha (ou músicas de ovelha). Para finalizar, uma confissão: eu queria escrever uma resenha de 'Jeannette' que facilitasse o interesse do leitor, mas percebo que eu acabei tornando-a ainda mais inacessível. E isso também é parte de um processo que muitos - mas não todos - espectadores atravessarão ao ver o filme. Ele é um desafiante drama artístico que tem um escorregadio senso de humor e um bocado de ousadia. Então não, eu não poderei explicar por que este filme é tão bom. Você terá que julgá-lo por si mesmo." (Simon Abrams)
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