Zygmunt Bauman:
A meu ver, o objetivo crucial desse diálogo permanente é, a longo prazo, a ruptura do hábito generalizado, talvez mesmo quase universal, dos “não sociólogos" (também conhecidos como “pessoas comuns em suas vidas comuns") de fugir da categoria explanatória “a fim de", quando se trata de relatar sua conduta, empregando em vez disso um argumento do tipo “por causa de". Por trás desse hábito se encontra o pressuposto tácito, ocasionalmente articulado, porém sobretudo inconsciente e dificilmente questionado, de que “as coisas são como são" e “natureza é natureza – ponto final", assim como a convicção de que há pouco ou nada que os atores – sozinhos, em grupo ou coletivamente – possam mudar no que se refere aos veredictos da natureza.
O resultado disso é uma visão de mundo inerte, imune à argumentação. Ela acarreta uma mistura verdadeiramente mortal de duas crenças. Primeiro, a crença na inflexibilidade da ordem das coisas, da natureza humana ou da condição dos assuntos humanos. Segundo, a crença numa fraqueza humana beirando a impotência. Esse dueto de crenças estimula uma atitude que só pode ser descrita como uma “rendição antes de se travar a batalha". Étienne de la Boétie, admiravelmente, deu a essa atitude o nome de “servidão voluntária". Em Diário de um ano ruim, de J.M. Coetzee, o personagem C. discorda: “La Boétie está errado." E prossegue mostrando o que estava faltando naquela observação de quatro séculos atrás, e que, não obstante, está ganhando importância em nossos dias: “As alternativas não são a servidão complacente de um lado e a revolta contra ela de outro. Há uma terceira via, escolhida por milhares e milhões de pessoas todos os dias. É o caminho do quietismo, da obscuridade voluntária, da emigração interna." As pessoas seguem a correnteza, obedecendo às suas rotinas diárias e antecipadamente resignadas diante da impossibilidade de mudá-la, e acima de tudo convencidas da irrelevância e ineficácia de suas ações ou de sua recusa em agir. O máximo que eu arriscaria dizer é que, enquanto executam seu trabalho profissional de maneira adequada, os sociólogos estão inevitavelmente, de forma consciente ou não, preparando o terreno em que a consciência moral pode crescer, e com ela as chances de as atitudes morais serem assumidas e de a responsabilidade pelos outros ser cada vez mais aceita. Isso, porém, é o máximo que podemos avançar.
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
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