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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Eliane Brum:

Os métodos da indústria de junk food foram dissecados pelo jornalista americano Michael Moss num livro-reportagem que acabou de ser lançado: Salt Sugar Fat: How the Food Giants Hooked Us. Em tradução livre: “Sal, Açúcar, Gordura: Como os Gigantes da Comida nos Escravizam”. Moss é um repórter investigativo que ganhou o Pulitzer de 2010, o prêmio mais prestigioso dos Estados Unidos, pelo seu trabalho sobre a indústria da carne. Em 20 de fevereiro, ele escreveu uma reportagem no The New York Times, abordando alguns dos principais tópicos do livro, que pode ser lida aqui. Para escrever sobre a indústria de junk food, o jornalista afirma ter entrevistado mais de 300 pessoas, entre cientistas, marqueteiros e CEOs das grandes corporações. Segundo ele, alguns estavam ansiosos para extravasar o que estava preso na garganta. Outros só falaram, com muita relutância, depois de serem confrontados com algumas das milhares de páginas de relatórios secretos obtidos de dentro da indústria. Entre os relatos escabrosos, aparece inclusive o Brasil: um alto executivo de uma companhia de refrigerantes (demitido quando quis mudar os métodos) conta como peregrinou pelas favelas brasileiras, para expandir o mercado a partir da estratégia de convencer pobres a consumir o que não precisam.

Entre as muitas declarações colhidas pelo jornalista, há algumas que se destacam pelo cinismo. “Eu otimizo sopas. Eu otimizo pizzas. Eu otimizo molhos para saladas. Nesta área, eu sou aquele que vira o jogo”, diz Howard Moskowitz, uma lenda da indústria, que há décadas vem “otimizando” produtos em baixa e transformando-os em armadilhas letais para homens, mulheres e crianças, usando para isso muito dinheiro, equipes de primeira linha e pesquisa de ponta. O cientista assim afirma sua total falta de conflito por produzir morte: “Não existe questão moral para mim. Eu fiz a melhor ciência que pude. Precisava sobreviver e não podia me dar ao luxo de ser uma criatura moral. Como pesquisador, sempre estive à frente do meu tempo”. Moskowitz estudou matemática e tem Ph.D em psicologia experimental em Harvard.

A reportagem mostra como vários produtos, de diferentes corporações, foram “otimizados” para dar ao público algo do qual ele não conseguiria escapar: o “bliss point” – que pode ser traduzido como o “ponto da felicidade”. Para atingi-lo, é necessário não apenas encontrar o sabor, a textura e a quantidade precisa dos ingredientes, a maioria deles nocivo à saúde, mas também investigar em profundidade os pontos de fragilidade de homens, mulheres e crianças. Identificar as barreiras – e quebrá-las uma a uma. As mães prefeririam dar comida saudável para seus filhos? Ok, mas sua principal queixa é a de que não têm tempo. Logo, é o tempo o flanco descoberto a ser atacado. Como alcançar as crianças diante da TV? Ora, com truques psicológicos como um slogan como este, de um produto que embala desejos de autonomia frente aos pais: “Todo dia você faz o que eles dizem. Mas na hora do lanche é você quem manda”.

Perto de 500 químicos, psicólogos e técnicos realizaram pesquisas que chegaram a custar até 30 milhões de dólares ao ano. A equipe de cientistas concentrou a maior parte dos recursos em questões como a crocância, a sensação tátil na boca e o sabor de cada um dos itens. Suas ferramentas incluíam um equipamento de 40 mil dólares que simulava uma boca mastigando, apenas para testar e aperfeiçoar o produto. Com todo esse arsenal humano, científico e tecnológico, alcançaram a Lua: o ponto perfeito de quebra do salgadinho diante da pressão média de uma mordida humana.  

No final de janeiro, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), vetou a lei que restringia a publicidade de produtos alimentícios para crianças. Pelo texto, aprovado pela Assembleia Legislativa em dezembro, se tornaria proibido veicular anúncios de alimentos e bebidas pobres em nutrientes e com alto teor de açúcar, gorduras saturadas ou sódio, entre as 6h e as 21h, no rádio e na TV. Também seria vetado o uso de celebridades ou personagens infantis na venda de alimentos, assim como o uso de brindes promocionais, como os vendidos com sanduíches em redes de fast food (leia aqui). Em 22 de fevereiro, outra derrota. Desembargadores do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª. Região confirmaram a suspensão da Resolução 24 (RDC 24), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Na resolução, a Anvisa (leia aqui) obrigava os fabricantes a colocar nos produtos o alerta de que o consumo em excesso poderia causar problemas de saúde como diabetes, hipertensão e obesidade. Desde que a resolução foi aprovada, em 2010, a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (ABIA) luta para derrubá-la – e tem conseguido, alegando que a propaganda é “uma forma de liberdade de expressão”, que só pode ser alterada por lei do Congresso Nacional. No Congresso, o projeto de lei que trata da regulação da publicidade dirigida a crianças se arrasta há 11 anos (leia aqui). Em 2013, como tem alertado o Instituto Alana (veja aqui), um dos mais combativos nesta luta, ao completar 12 anos terminará a infância do projeto – uma infância passada engatinhando de comissão em comissão. E mais uma geração de brasileiros terá deixado de ser protegida.


Terra:

"Para testar as informações coletadas entre os fabricantes, o jornalista convenceu algumas empresas a produzir amostras com menos quantidades dos três ingredientes. Segundo ele, uma de suas bolachas preferidas da marca Kellogg ficou sem gosto, parecendo isopor, na versão com menos sal. Moss diz que as empresas abusam do item, pois é excelente para conferir sabor a alimentos processados. O escritor também achou sem graça versões sem sal de sopas, carnes processadas e pães, incluindo amostra da famosa empresa Campbell. 'Tire um pouco de sal, ou açúcar ou gordura das comidas processadas e minhas experiências mostram que não sobra nada. Pior, o que sobra são as inevitáveis consequências, gostos horríveis que são amargos, metálicos e adstringentes', escreveu. Michael Moss conta que cientistas da Nestlé estão alterando a distribuição e a forma da gordura a fim de mudar a maneira como a boca percebe a comida. A lógica seria quanto melhor a experiência, maior o desejo de comer o produto de novo. No caso do açúcar, hoje fabricantes conseguiram ampliar a sensação de doce em até 200 vezes."



Rodolfo Lucena - Seu livro começa descrevendo uma reunião que lembra encontros de mafiosos. O senhor acredita que a indústria de alimentação parece com uma organização criminosa?

Michael Moss - Pensar nessas companhias como organizações criminosas é um pouco exagerado. Elas fazem o que todas as empresas querem fazer: faturar o máximo possível, vender o máximo possível. O problema é que elas vêm fazendo isso com o uso de enormes quantidades de sal, açúcar e gordura para tornar seus produtos baratos, convenientes e irresistíveis.



O senhor acredita que essa indústria quer de fato viciar os consumidores em sal, açúcar e gordura?
Sim, claro. Em minhas pesquisas, descobri vasta quantidade de documentos e entrevistei pessoas-chave na indústria, produzindo o perfil de uma indústria que trabalha não só para que a gente goste de seus produtos, mas para que a gente queira sempre mais e mais. Sal, açúcar e gordura são a trindade demoníaca para conseguir isso.



Há crime nas ações da indústria? Ou são operações normais para vender mais e ter mais lucro?
É o capitalismo. Além do mais, essas indústrias têm sofrido cada vez maiores pressões de seus investidores para maximizar seus lucros. Executivos da indústria da alimentação passaram a tomar decisões baseados em ganhos de curto prazo, deixando de lado, por serem muito custosas, pesquisa e inovação para obtenção de produtos mais saudáveis.



Quais foram suas maiores surpresas durante a produção do seu livro?
Tive duas grandes surpresas. A primeira é o fato de que muitos dos químicos, pessoas de marketing e executivos da indústria de alimentação não comem os produtos feitos por suas empresas, sabendo que eles não são saudáveis e induzem ao consumo em excesso. A segunda é que, ainda que nós estejamos viciados em sal, açúcar e gordura, a indústria é muito mais dependente desse trio. São ingredientes milagrosos que permitem fazer comida processada irresistível, de baixo custo e longo prazo de validade.



O que o senhor pode nos falar sobre as relações entre a indústria da alimentação e os fabricantes de cigarro?
Desde o final dos anos 1980 até meados dos anos 2000, a maior fabricante mundial de cigarros, a Philip Morris, era também a maior fabricante mundial de comida processada, dona da General Foods e depois da Kraft. E durante boa parte do período você pode ver executivos da indústria de cigarros fazendo o que sabem fazer, emprestando suas ferramentas de marketing aos colegas da área de alimentação.



O governo consegue obrigar as indústrias a produzir comida mais saudável?
A indústria da alimentação é muitas vezes mais poderosa do que as agências governamentais. Só nos anos 1990 as indústrias tiveram de divulgar os ingredientes de seus produtos –mesmo assim, a maioria imprimia a lista em letras muito pequenas.



O que o governo deveria fazer para que tivéssemos comida mais saudável?
Uma ação possível é aumentar os impostos sobre alimentos não saudáveis, como refrigerantes, para reduzir o consumo. A receita desses impostos deveria ser investida em programas para melhorar a saúde pública. O governo também poderia investir mais em criar programas educacionais para crianças.



A situação mudou nos EUA desde que seu livro saiu?
Sim, as coisas mudaram muito. Há cada vez mais gente preocupada com a qualidade da comida, mudando seus padrões de compra e de alimentação. Isso vem pressionando os gigantes da indústria a melhorarem a qualidade de seus produtos. Uma após outra, as grandes empresas da área divulgaram lucros menores neste ano, e as mais francas disseram que a causa da queda foi a perda de confiança do público. Isso vem abrindo as portas para uma leva de novas companhias oferecendo produtos mais saudáveis.

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