
26 de março de 2010 | N° 16286AlertaVoltar para a edição de hoje
OPINIÃOTEATRO
Quebra de protocolo
Cia. Espaço em Branco encena “Homem que Não Vive da Glória do Passado” no Teatro de Câmara Túlio Piva
Não é qualquer grupo que inicia suas atividades com um espetáculo tão bem acabado como Extinção – A Impossibilidade Física da Morte na Mente de Alguém Vivo, o primeiro que a Cia. Espaço em Branco, de Porto Alegre, montou, em 2005, e um dos melhores daquele ano. Desde então, eles têm investido cada vez mais em elementos que estavam em estágio embrionário, como a integração entre linguagens (teatro, artes visuais, música etc) e o uso da tecnologia, com projetores, TVs e filmadoras em cena, em peças como Andy/Edie e Teresa e o Aquário.
Homem que Não Vive da Glória do Passado, em cartaz de sextas a domingos, até 11 de abril no Teatro de Câmara Túlio Piva, na Capital (confira detalhes no roteiro do Guia hagah), faz parte dessa busca por uma síntese que borre os limites entre os discursos artísticos. Mais do que testar onde começa e onde termina cada um desses domínios, propõe alargar o conceito de teatro, abrir espaço para o novo.
O espetáculo tem atuação de João de Ricardo, que divide a direção com Bruno Gularte Barreto. A dupla também assina o texto, baseado em uma história criada por Barreto: na clausura de um quarto, um homem descobre que todas as mulheres do mundo subitamente morreram. Misture-se a isso uma crítica sobre o conceito de sucesso pessoal e profissional nos tempos atuais.
Do início ao fim, há uma aposta na quebra do protocolo teatral. A peça começa ainda no saguão do teatro, com uma intervenção informal de João de Ricardo, que conduz o público para dentro. As primeiras 20 pessoas que compram ingresso assistem à parte inicial de um lugar diferenciado, em cima do palco – com a cortina fechada. Do outro lado, na plateia, os demais assistem ao que se passa por meio de um vídeo em tempo real. Mas a estratégia de separar o público (apenas na primeira parte, frise-se) parece movida mais por uma limitação física do teatro do que por uma concepção cênica. E frustra a maior parte dos espectadores, que não experimenta o espetáculo em sua plenitude.
Homem que Não Vive... é um trabalho que não tem medo de arriscar, mas está aquém do que a companhia, em outras ocasiões, já mostrou que pode oferecer. A utilização dos recursos tecnológicos não avança muito em relação ao que já foi feito. A projeção em vídeo que ocupa toda a parede frontal à plateia e o palco nu compõem um espaço cênico cartesiano, que não condiz com a proposta fragmentária do discurso. As diferentes linguagens utilizadas – performance, videoarte, música etc – dialogam entre si, mas não se integram em uma síntese orgânica a serviço do espetáculo.
Por fim, falta um ritmo que confira dinâmica entre as sequências que compõem a peça, com duração de duas horas – que poderiam ser consideravelmente enxugadas. Homem que Não Vive... aponta caminhos, e isso é notável, mas não faz brilhar o talento que a Cia. Espaço em Branco tem.
fabio.pri@zerohora.com.br
FÁBIO PRIKLADNICKI

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