Abaixo, uma questão primordial da vida, que surgiu hoje concomitantemente em Porto Alegre e Londres, no meu trabalho e em conversa por e-mail com o Muriel - de novo, a Teoria da Sincronicidade do Jung. Questão primordial da vida humana. E como. Quando eu me deparo com um grupo muito leve, muito diferente de mim, então eu me sinto um fungo de Plutão. Exemplos de grupos? Pessoas que não escolheram beber, que bebem porque não sabem. Pessoas que não suportam o peso, que fogem sempre que podem para a leveza. Pessoas que não encaram o peso que o Leminski encarou. "Quem nunca viu a ternura que sai do fio da lâmina samurai, esse nunca vai ser capaz." É estranho porque, no fim das contas, esse peso do Kundera - e do Parmênides e do Sartre e do Nietzsche - acaba trazendo mais liberdade do que a leveza, pelo menos segundo a minha noção de liberdade. Até porque, sendo pesado (e até a minha psiquiatra já me sentenciou isso), sou leve (e ouço isso não só de mim, como também dos mais íntimos).
"Se cada segundo de nossa vida deve se repetir um número infinito de vezes, estamos pregados na eternidade como Cristo na cruz. Que idéia atroz! No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma insustentável leveza. Isso fazia com que Nietzsche dissesse que a idéia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos (das schwerste Gewicht). Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, nossas vidas, sobre esse pano de fundo, podem aparecer em toda sua esplêndida leveza. Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza? O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo, a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?" (KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. Cap. 2.)
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quarta-feira, 4 de junho de 2008
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2 comentários:
concordados em gênero e número meu caro, eu só cortaria o bosta do sartre dessa nobre listinha, aquele crápula não merece a nossa memória. põe rilke no ligar dele, que achas? e acrescento uma coisa que um cineasta brasileiro (cujo nome não lembro) falou sobre o Nietzsce, mais ou menos assim: o único defeito de Nietzsche foi que ele esqueceu de praticar ioga. Ele quer dizer justamente que Nietzsche não soube olhar a leveza que habita o outro lado do pesadíssimo fardo do eterno retorno, por isso sua vida foi menos sábia do que os seus belos escritos.
Eu tirei daqui a menção ao Sartre (e a não-menção ao Rilke).
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