Míni, tirando um pouco da curiosidade que eu tinha sobre o curso de criatividade do Charles Watson e amenizando a frustração que eu tenho por não ter podido participar de nenuma das edições que nesta cidade foram realizadas:
"Semana passada [13 de março de 2006 é a data do post] fiz um curso sobre processo criativo oferecido pela empresa. Trouxeram para cá Charles Watson, um ex-pintor inglês que mora há 30 anos no Rio de Janeiro e é figura importante no cenário das artes. Também é, na minha opinião após um rápido curso de 20h em 4 dias, um excelente professor, que te desafia, que te angustia, que te coloca um monte de questões punk enquanto passa o conteúdo.
"Eu anotei algumas coisas pontuais que me chamaram a atenção. Algumas eu já tinha ouvido, outras eu já tinha me dado conta, outras eu nunca tinha pensado. Uma parcela do conteúdo eu já tinha visto sob forma de budismo e foi realmente fascinante ver aquelas informações organizadas de outro modo. A cultura humana é realmente incrível na maneira como reorganiza as informações básicas que reúne. No fundo, é tudo a mesma coisa...
"Obviamente o que vem aqui é uma redução de tudo que captei, além de uma interpretação particular. Conversando com outros colegas percebi que no início eu ainda achava que todas as pessoas estavam participando do mesmo curso. Mas é claro que estava cada um dentro do seu processo particular.
"Pra começar, a base de tudo. Existe uma espécie de senso médio que diz que criatividade é qualquer coisa muito louca e diferente. E uma das frases que eu mais curti foi: 'Criatividade pressupõe capacidade de transitar entre pólos subjetivos e objetivos.' Ou seja: criatividade não é qualquer coisa mutcholôca. É preciso haver a presença de 'não-criatividade' para que a 'criatividade' seja percebida ou pensada assim. Em outras palavras, criatividade implica obrigatoriamente a existência de LIMITES.
"(...) A beleza de todos os que foram extremamente criativos nas suas áreas está justamente no fato de que eles estavam lidando com limites absolutamente restritivos. Quanto mais restritivos, mais criativos os caras tinham que ser. (...) Outra lembrança que me vem à mente agora é o show do Sonic Youth. A minha vida toda eu ouvi os discos achando ingenuamente que os caras faziam 'um puta barulho massa e divertido, botavam os demônios pra fora'. Aí no show você vê que é uma criatividade linda, um derramar de sentimentos incontidos mas dentro de limites muito bem estabelecidos, limites que eles continuamente empurram e demarcam. Não é só simplesmente tacar a baqueta nas cordas feito um bezerro bêbado.
"Outra boa frase: 'Pessoas criativas têm meos ansiedade em nomear as experiências. Elas vivenciam as experiências mais diretamente.' Isso é algo muito discutido no budismo e é uma coisa muito muito difícil. Acho que aqui o Charles Watson estava falando em graus, porque obviamente pessoas criativas também não se relacionam total e diretamente com as experiências, sempre há uma mediação mínima. Mas com certeza pessoas criativas têm maior tolerância a experiências que não podem ser encaixadas em conceitos e parâmetros por um determinado tempo.
"O Charles Watson fala muito disso: o processo criativo deve ser um fim por si só. Ninguém que se envolve em alguma atividade criativa pode ficar pensando no fim, na recompensa, porque isso automaticamente mata o processo criativo.
"Todo criador, segundo ele, deve temer a sua criação. Porque quando você chega na obra, termina o processo criativo e tem a solução, acaba a melhor parte: o processo em si. Curiosamente, o ato criativo é um ato que leva invariavelmente à uma morte. E a morte é sempre dura. Criar é morrer o tempo todo.
"No curso, o Charles Watson mostrou um vídeo que mostrava o matemático que desvendou o Teorema de Fermath, considerado o maior problema de matemática da história, que ficou 300 anos sem ser resolvido. A primeira cena do documentário é o cara contando o dia que desvendou a equação. Ele começa a chorar e diz 'isso foi a coisa mais importante que aconteceu na minha vida e nada mais então teve tanta importância'. Moralismos à parte, a gente vê aí o que é o dilema de todo criativo: quando você chegou no objetivo, acabou. Você tem que partir para outra.
"(...) De fato, o Charles Watson o tempo todo foi muito provocativo a respeito da atitude de cada um com a vida. Ele contou uma história muito interessante a respeito de um artista de performance taiwanês que ficou um ano da sua vida fazendo uma performance. Durante 365 dias, a cada uma hora ele bateu ponto num relógio ponto instalado no seu atelier. E a cada batida de ponto, ele se filmava ao lado do relógio em um frame. Um ano. Um ano sem se afastar mais de 50 e poucos minutos do relógio ponto. Todos os dias. Dia e noite. Dormindo no máximo períodos de 50 e poucos minutos. A primeira coisa que a gente pensa, como levantou o Charles Watson, é: 'Mas que perda absurda de tempo! Perder um ano inteiro fazendo isso??' Mas ao mesmo tempo, ele levantou uma questão que eu achei tocante: 'Você tem algo na SUA vida ao qual dedicaria TAMANHO comprometimento?' Porque a gente pula a vida toda de atividade em atividade sem um comprometimento real e maior nesse nível com qualquer coisa. Enfim, é de se pensar, repetindo.
"Mais uma anotação do curso: 'O fazer não admite o especular. O especular não admite o fazer.' (...) E pra fechar, um sisteminha pra definir processo criativo que ele inventou lá."
PROCESSO CRIATIVO PRESSUPÕE
- A existência de uma cultura que contenha regras simbólicas
- Uma pessoa que traga inovações dentro dessa área simbólica
- Um grupo de peritos ou entendidos que reconheçam tal inovação
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terça-feira, 21 de agosto de 2007
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