Eu menti. Disse que não colaria mais aqui a discussão sobre Lynch que estou tendo com um outro fã no orkut. Mas o debate continua e eu resolvi colar a nova seqüência. Quem ainda não viu 'Estrada perdida', pule para o próximo post, para o próprio bem. Quem já viu, apreciaria se desse a sua opinião.
Don: Um saxofonista (Fred - Bill Pullman) que sofre de transtorno de dupla personalidade é preso por ter assassinado sua namorada (Renee - Patricia Arquete), que o traía com um homem que possui ligações com a indústria pornô. Na cadeia, tenta se livrar desse sentimento e, incentivado por seu distúrbio psicológico, muda os fatos de sua memória vivenciando-a sob a pele de outra persona (Pete), numa tentativa de se livrar da culpa. A mudança de personalidade de Fred ocorre no momento em que está dirigindo na estrada e, de repente, pára no acostamento, onde vemos ali, parado, Pete, e, mais ao fundo, a casa onde vivem seus pais. E na seqüência da cabana, vemos claramente que Fred e Pete são a mesma pessoa. Os personagens Mistery Man e Alice só existem em sua mente, e são, a mesmo tempo, sua projeção psicológica e sua maneira de lidar com essa culpa. A segunda parte do filme, quando acompanhamos a trajetória de Pete, estamos, na verdade, acompanhando o sonho de Fred na cadeia, que dorme depois de tomar um sedativo por estar sem dormir há alguns dias. Nesse sonho ele vai reconstruindo todos os fatos, não exatamente da maneira como ocorreram. O verdadeiro assassino de Andy é o próprio Fred, que por sua vez já teria matado Dick Laurent no quarto do Lost Highway Hotel. A cabana é o possível local onde teria escondido o corpo de Dick Laurent e a perseguição final seria a maneira metafórica de fugir de tudo, da culpa e de sua realidade. Outra interpretação sobre Mystery Man é que este seria a representação de sua memória - por isso a câmera na mão. Depois de assisti-lo 5 vezes, estou começando a achar que, no começo do filme, a Renee já está morta e que tudo aquilo não passa de uma alucinação de Fred, até mesmo os diálogos entre eles e coleta das fitas. A Renne está sempre de preto (provavelmente seja um simbolismo utilizado por Lynch que reforça isso). As fitas são suas projeções mentais, literalmente falando, numa tentativa de arrumar um álibi para não ser preso. Provavelmente ele mesmo tenha ligado para a polícia. Pode ser que quando assistimos as cenas das fitas, no começo do filme, na verdade estamos assistindo às suas projeções mentais(pode ser até uma representação simbólica), enquanto aguarda os detetives voltarem do quarto onde está Renee, esquartejada. Isso pode explicar o soco que leva de um dos policiais: ("Sit down, you killer!"), provavelmente depois de voltarem do quarto onde está o corpo. A partir daí acompanhamos a trajetória de Fred na prisão e sua transformação em Pete, provocada por seu distúrbio de dupla personalidade. Concluindo, a finalidade desse filme é contar a história desse homem com transtorno de dupla personalidade através de uma estrutura narrativa formada por duas trajetórias diferentes que se interpolam por conta da perturbação mental do personagem principal, como se fôssemos jogados para dentro de sua mente. "Eu gosto de lembrar as coisas à minha maneira", diz Fred no começo do filme. É certo que esse filme é denso e de difícil assimilação. Mas daí a afirmarmos que DL faz filmes que para as pessoas não entendam há uma distância enorme. O roteiro desse filme é um marco na história do cinema.
Douglas: É um bom exercício de silogismos. São muitas suposições, e lembro que sempre haverá algum elemento que impossibilita qualquer caminho de interpretação "linear/racional". Uma prova disso é que nunca nenhum fã conseguiu fechar 100% uma interpretação de 'Estrada perdida' ou 'Cidade dos sonhos'. Seria o argumento do filme tão complexo que ninguém conseguiria desvendar? E o David Lynch não falou em uma entrevista que seus argumentos são simples? O que é possível é interpretar cada trecho, isoladamente, da forma como você interpretou - mas, como venho escrevendo, é somente interpretação, porque é impossível e absurdo tentar explicar algo que não nasceu pra ser explicado. (Sobre usar preto, se não me engano, na primeira parte do filme, ambos Fred e Renée usam preto.) Ele não faz filmes pras pessoas não entenderem, ele simplesmente está noutro patamar, imerso no tipo de arte que não precisa de entendimento. Ele não quer incomodar as pessoas com o não-entendimento, ele quer presentear elas com isso. Esse é o ponto mais profundo de sua genialidade.
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segunda-feira, 2 de julho de 2007
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