É incrível ler um texto "com a voz" do seu escritor. Não me lembro quando comecei a fazer isso, talvez um pouco com o Joseph Campbell. As 'Crônicas', do Bod Dylan, eu já não consegui ler sem ouvir o tom de voz do cara em cada palavra. O livro do Galera, então, 'Até o dia em que o cão morreu', parecia estar sendo contado por ele, porque eu conheço bem o jeito de ele falar. Agora estou lendo 'A caverna', do José Saramago, e é muito bom ouvi-lo falando cada linha do texto. Eu chego a me emocionar, molhar os olhos até, vendo ele falando as coisas que ele escreve. Pude assimilar seu jeito de falar, e senti-lo como um amigo próximo inclusive (coisa que acontece com pessoas tão carismáticas e com quem eu me identifico tanto, como ele e o Campbell), no documentário 'Janela da alma', e talvez em alguma outra ocasião, como a transmissão da (matadora) palestra dele aqui no Fórum Social Mundial. O Saramago é sensacional.
"(...) Entre as barracas e os primeiros prédios da cidade, como uma terra-de-ninguém separando duas facções enfrentadas, há um largo espaço despejado de construções, porém, olhando com um pouco mais de atenção, percebe-se no solo uma rede entrecruzada de rastos de tratores, certos alisamentos que só podem ter sido causados por grandes pás mecânicas, essas implacáveis lâminas curvas que, sem dó nem piedade, levam tudo por diante, a casa antiga, a raiz nova, o muro que amparava, o lugar de uma sombra que nunca mais voltará a estar. No entanto, tal como sucede nas vidas, quando julgávamos que também nos tinham levado tudo por diante e depois reparamos que afinal nos ficara alguma coisa, igualmente aqui uns fragmentos dispersos, uns farrapos emporcalhados, uns restos de materiais de refugo, umas latas enferrujadas, umas tábuas apodrecidas, um plástico que o vento traz e leva, mostram-nos que este território havia estado ocupado antes pelos bairros de excluídos. (...)" (SARAMAGO, José. A caverna. 2000.)
"(...) Cipriano Algor aproximou-se da sepultura da mulher, três anos são já os que ela leva ali em baixo, três anos sem aparecer em parte nenhuma, nem na casa, nem na olaria, nem na cama, nem à sombra da amoreira-preta, nem sob o sol esbraseado da barreira, não voltou a sentar-se à mesa nem ao torno, não retira as cinzas caídas da grelha nem vira as peças que estão a secar, não descasca as batatas, não amassa o barro, não diz, Assim são as coisas, Cipriano, a vida não tem mais do que dois dias para dar, e tanta gente houve que só viveu dia e meio, e outros nem tanto, já vês que não nos podemos queixar. (...)" (SARAMAGO, José. A caverna. 2000.)
"(...) Lembra-se do que a mãe disse quando o Constante morreu, que nunca mais queria cães em casa, Lembro-me, sim, mas sou capaz de jurar que se ela estivesse viva não seria o teu pai quem estaria a levar este prato ao tal cão que ela não queria, respondeu Cipriano Algor, e saiu sem ter ouvido o murmúrio da filha, Talvez não esteja fora de razão. A chuva tinha voltado a cair, era o mesmo enganador chove-não-molha, a mesma poeirinha de água a bailar e a confundir as distâncias, incluso a figura alvacenta do forno parecia decidida a ir-se para outras paragens, e a furgoneta, essa, tinha mais o aspecto da carroça fantasma que de um veículo moderno de motor de explosão, ainda que não de modelo recente, como sabemos. Debaixo da amoreira-preta, a água escorregava das folhas em gotas grossas e esparsas, agora uma, outra depois, ao acaso, como se as leis da hidráulica e da dinâmica dos líquidos, ainda reinantes fora do precário guarda-chuva da árvore, não tivessem aplicação ali. (...)" (SARAMAGO, José. A caverna. 2000.)
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