Eu moro na frente do Paraíso. O Paraíso é um supermercado e, como todo supermercado em Taquari, fecha ao meio-dia. Fica totalmente escuro. Parece que todos se foram, com súbita emergência, por causa da Infecção. Nenhum ser circula nas ruas da cidade, a pé, de bicicleta, carro ou vespa, no horário do meio-dia. Eis que chego à conclusão que estou no meio de alienígenas. No caminho para o trabalho, de manhã, todas as pessoas que passam por mim me olham e me cumprimentam, até os jovens do sexo masculino e de classe operária, que passam de bicicleta. Parece-me um teste direto para o forasteiro, embora quase todo mundo classificasse isso como simpatia interiorana. Vamos dar oi para catalogá-lo, ver como ele reage. Vejo que aqui em Taquari o estado civil de solteiro é apenas para os adolescentes e as adolescentes, adultos da minha idade almoçam com filhos e filhas. Quase não há miscigenação, os rostos são muito parecidos, parecem ser todos da mesma família. Outra particularidade é que, até agora, não vi nenhum gato. A janela do meu quarto desemboca num telhado brasilit que é uma rampa potencialmente convidativa para felinos virem à minha visita, mas só há cães pequenos, todos mal-humorados, sem exceção, e o meu colega de trabalho comprou uma pistola para exterminar gatos. Só há um lugar onde você se sente em repouso, seguro, e esse lugar é o seu lar, seja onde for que você o instale. Qualquer animal tem essa mesma necessidade, e consiste em bazófia pura acreditar que o ser humano é diferente, que ele pode racionalizar um deslocamento, um exílio.
Em nome de um salário que deixará o resto da minha vida mais tranqüila, passo agora por um aperto, sustentando duas moradias simultaneamente. E passo agora por essa prisão, por essa estadia onde eu não pretendia estar, a cem quilômetros do meu lar, ou a quase duas horas de ônibus dele, ou a vinte mil reais de um carro dele, a mil reais de combustível mensal dele; estou a ligações interurbanas da minha namorada. Comecei a trabalhar aqui no segundo dia em que cá estive, e comecei a morar no terceiro. Não conheço ninguém na cidade, além de alguns com quem sou obrigado a conviver, como meus dois colegas e os funcionários do hotel. E não tenho esperança de chegar perto de qualquer comunicação decente com qualquer indivíduo de Taquari. Não me sinto bem. Sei que não escaparei de alguma melhoria, mas não me sinto bem. Ônibus circular tem três vezes por dia, e a igreja toca o sino a cada meia-hora, tantas vezes quando forem as horas, para que os moradores que não têm relógio (ou eu deveria ter colocado ali uma vírgula para transformar a frase de restritiva para explicativa?) fiquem sabendo quando estão.
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domingo, 28 de janeiro de 2007
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