Artista prega peça na imprensa
Jovem performer cearense inventou exposição de "renomado artista japonês"
SUZANA VELASCO/ Agência Globo
A informação chegou aos cadernos de cultura do Ceará e foi ali reproduzida. O renomado artista japonês Souzousareta Geijutsuka viria ao país pela quarta vez para abrir, no dia 10 deste mês, a exposição Geijitsu kakuu, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Fortaleza. No dia seguinte à divulgação do evento pela imprensa local, veio a revelação: Souzousareta não existia.
Era tudo invenção de um artista de 23 anos, Yuri Firmeza, que quis criar um trabalho justamente sobre os critérios para o reconhecimento da arte nos dias de hoje. Depois de pregada a peça, a imprensa cearense passou a discutir o assunto de forma apaixonada, uns com louvores à idéia de Firmeza, outros - sobretudo os que caíram na cilada - atacando ferozmente o que seria uma "molecagem" de menino. Além da atitude do artista, foi criticada a participação do MAC, reconhecida instituição de arte, por ter colaborado com a farsa.
- Quis questionar o papel do museu, da formação de artes visuais e da imprensa. O artista que criei é a própria obra, e o suporte do trabalho foi o jornal - diz Firmeza. - Achava que os jornalistas teriam mais humor. Faltou reconhecer que eles têm esse interesse pelo que é de fora, querem ser seduzidos pelos mesmos artifícios com que seduzem o público. Provaram o quanto são reacionários. Levaram para o lado pessoal, o ego foi ferido.
O humor ficou mesmo por conta da releitura dos textos publicados. Segundo o jornal O Povo, o trabalho do artista era reconhecido no mundo todo e tinha como foco "a harmonia entre a natureza que nasce e morre, empregando equipamentos tecnológicos, para abordar a discussão em torno da fragilidade da vida e suas conseqüentes contradições". Informações retiradas da assessoria de imprensa do artista, feita pela namorada de Firmeza.
Além de um texto exaltando a arte eletrônica de Souzousareta, a competente assessora enviou registros do trabalho: uma foto de um gato (abaixo), que seria um trecho de um vídeo, e uma imagem, distorcida em photoshop, da Praia Porto das Dunas, do Ceará.
- Procuro dar a máxima liberdade para o artista criar - comentou mais tarde o diretor do MAC de Fortaleza, Ricardo Resende. - Convidei o Yuri pensando em suas performances, que já achei que seriam bastante ousadas (ele faz muitas das performances nu). Mas ele foi mais ousado ainda e me testou, para ver até onde eu iria. Fui adiante porque tive o apoio da presidência do museu. Sabíamos que poderia haver um conflito, mas a imprensa podia não ter publicado uma linha.
Para Resende, a divulgação só prova o preconceito da imprensa com os artistas cearenses, já que nas outras edições do projeto Artista Invasor não houve qualquer reportagem:
- Há um certo deslumbramento com o que vem de fora. No Brasil todo, não só no Ceará - sublinha Resende. - A mídia insistiu em publicar a matéria, mesmo com dificuldades de achar informações. Foi uma ingenuidade.
No museu, o visitante poderá ver a troca de e-mails entre Firmeza e um amigo sociólogo, com conversas sobre Bourdieu, Nietzsche e Deleuze, inspiradoras da idéia de se criar um artista inventado. Aos poucos, o local receberá ainda as fotos do suposto japonês, divulgadas para a imprensa, reportagens sobre o caso e performances e registros em vídeo de Yuri.
A história toda, incluindo as matérias publicadas pelos jornais cearenses, estão no site www.dragaodomar.org.br/macce/galerias/2006_01/invasor/portugues.htm
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terça-feira, 24 de janeiro de 2006
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