Subject: longo. mas vale muito.
Date: Wed, 15 Oct 2003 11:10:14 -0300
From: "Manuela Martini Colla"
To: "Douglas Dickel"
Meu estimado senhor:
Recebi sua carta há poucos dias. Quero lhe agradecer a grande e amável confiança que esta representa. Mas pouco mais posso fazer. Não examinarei suas obras, pois sempre fui alheio a qualquer intenção crítica.
Para penetrar uma obra de arte, nada pior do que as palavras da crítica, que somente levam a mal-entendidos mais ou menos felizes. Nem tudo se pode saber ou dizer, como nos querem fazer acreditar. Quase tudo o que sucede é inexprimível e decorre num espaço que a palavra jamais alcançou. E nada mais díficil de definir do que as obras de arte, seres misteriosos cuja vida imperecível acompanha nossa vida efêmera.
Após isto, apenas acrescento que as suas obras não revelam uma maneira própria. Possuem, é certo sinais de personalidade, porém ainda tímidos e ocultos. Indaga-me se as suas obras são boas. Pergunta a mim, depois de ter perguntado a várias pessoas. Manda-as para galerias, compara-as a outras obras e alarma-se quando certos críticos repelem as suas pinturas. Doravante (já que me permite aconselhá-lo) peço-lhe que renuncie a tudo isto. O seu olhar está voltado para o exterior. Eis o que não deve tornar a acontecer. Ninguém pode dar-lhe conselhos nem ajudá-lo, ninguém! Só existe um caminho: penetre em si mesmo e procure a necessidade que o faz pintar. Observe se esta necessidade tem raízes nas profundezas do seu coração. Confesse à sua alma: "Morreria, se não me fosse permitido pintar?". Isto, principalmente. Na hora mais tranqüila da noite, faça a si mesmo esta pergunta: "Sou de fato obrigado a pintar?". Examine-se a fundo, até achar a mais profunda resposta. Se ela for afirmativa, se puder fazer face a tão grave interrogação com um forte e simples "sou", então construa a sua vida em harmonia com esta necessidade. A sua existência, mesmo na hora mais indiferente e vazia, deve tornar-se sinal
e testemunho de tal impulso.
Aproxime-se então da natureza. Depois procure como se fosse o primeiro homem, transpôr o que vê, vive, ama e perde. Evite, de início, os temas demasiados comuns: são os mais difíceis. Nos assuntos em que tradições seguras, às vezes brilhantes, se mostram em grande número, o pintor só pode realizar obra pessoal na plena maturidade da sua força. Fuja dos grandes assuntos e aproveita aqueles que o dia-a-dia lhe oferece. Pinte as suas tristezas e os seus desejos, os pensamentos que o tocam, sua fé na beleza. Pinte tudo com sinceridade, calma e humildade. Utilize, para se exprimir, os objetos que o rodeiam, as imagens dos seus sonhos, as suas lembranças. Se o quotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se
a si próprio de não ser muito pintor para extrair as suas riquezas. Para o criador nada é pobre, não há lugares mesquinhos e indiferentes. Mesmo num cárcere cujas paredes abafassem todos os ruídos do universo, não lhe ficaria sempre a sua infância, essa preciosa, essa esplêndida riqueza, esse tesouro de recordações? Volte, para esta direção, o seu espírito. Procure fazer regressar à superfície as impressões submersas desse longínquo passado.
A sua personalidade fortificar-se-á, a sua solidão povoar-se-á, tornando-se, nas horas mais incertas do dia, uma espécie de moradia fechada aos sons exteriores. E se lhe vierem pinturas feitas deste regresso a si próprio, deste mergulho no seu cosmo, não pensará em indagar se são boas ou não, não tentará conseguir que galerias se interessem pelos seus trabalhos, porque desfrutará deles como de uma posse natural, como de uma de suas formas de vida e expressão. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade: é a natureza da sua origem que a julga. Por isto, meu prezado senhor, apenas me é possível dar-lhe este conselho: mergulhe em si próprio e sonde as profundidades de onde jorra a sua vida. Só
desta maneira encontrará resposta à pergunta: "Devo criar?" De tal resposta recolha o som, sem desvirtuar o sentido. Talvez chegue à conclusão de que a Arte o chama. Neste caso, aceite o seu destino e siga-o, com o seu peso e a sua glória, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir de fora. O criador deve ser um mundo para si próprio, tudo encontrar em si e nesse pedaço de natureza com que se identificou.
Pode suceder que, depois desta descida em si mesmo, ao âmago solitário de si mesmo, tenha de renunciar a ser pintor. Mesmo assim, a instrospecção que lhe peço não terá sido inútil. A sua vida, desde aí, encontrará caminhos próprios. Que estes sejam bons, ricos e largos, é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.
Que poderei acrescentar? Acredito ter abordado o essencial. No fundo, apenas fiz questão de aconselhá-lo a progredir segundo a sua lei, de modo grave e sereno. Não lhe seria possível perturbar mais violentamente a sua evolução do que dirigindo o seu olhar para fora, do que esperando de fora as respostas que apenas o seu sentimento mais secreto, na hora mais silenciosa, poderá talvez proporcionar-lhe.
Restituo-lhe as obras que me confiou tão amigavelmente e mais uma vez lhe agradeço a cordialidade e a amplitude da sua confiança.
Procurei, nesta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, na minha qualidade de estranho. Com toda a dedicação e toda a simpatia,
Rainer-Maria Rilke
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quarta-feira, 15 de outubro de 2003
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