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sábado, 1 de setembro de 2018

Análise psicanalítica do fenômeno Boçalnázi, por Christian Dunker, professor de psicanálise da USP:

"A importância que o Bolsonaro dá à esquerda, a importância que ele dá para o antipetismo, na apresentação discursiva dele, é um fenômeno descrito por Freud em Psicologia das Massas e Análise do Eu - é uma estratégia para aumentar a coesão grupal. Vivemos momentos de anomia social, de insegurança, de desesperança, de desalento, com as pessoas parando de procurar emprego, de violação de expectativas (o país tinha crescido, tinha dado um bom passo à frente e agora está regredindo em números e indicadores sociais). Essa é a situação ideal para uma fragilização do nosso sentimento de pertencimento, de expectativa de futuro e de ligação entre o futuro e o passado.

Nesses momentos, torna-se tentador reforçar a pertinência das pessoas aos seus grupos (sejam grupos religiosos, sejam grupos esportivos, sejam grupos de classe, sejam os grupos ligados ao gênero) por meio do ódio a um inimigo que estaria causando tudo isso. Na Alemanha nazista foram os judeus; na Europa contemporânea são os imigrantes; nos Estados Unidos, na época do macarthismo, era o perigo comunista. Precisamos, para manter a coesão grupal, para sentir que estamos seguros, de um inimigo comum. Isso reforça os laços de fraternidade. É exatamente o que fazem figuras políticas como o Bolsonaro.

Um texto muito interessante que eu recomendo é 'A teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista', escrito por Theodor Adorno em 1949. Ele mostra como como a ascensão do fascismo responde a uma certa instrumentalização de frustrações: a decepção com as instituições, a decepção com um determinado estado de coisas, e incita as pessoas a valorizarem o que Adorno chama de 'o pequeno grande homem', que é aquela pessoa que fala 'como qualquer um', aquela pessoa que podia estar sentado com a gente num jantar de domingo, aquela pessoa que aparece como autêntica.

Ele fala o que pensa, então ele pode agredir os outros, ele pode diminuir os outros, mas pode porque ele não está fazendo teatro: ele está dizendo a verdade. É a ideia de uma comunicação direta, não mediada pelas instâncias institucionais, legais, discursivas, e que não responde ao diálogo sobre os fatos. Esse tipo de personagem, num debate, quando ouve uma pergunta de que não gosta, em vez de responder ele ataca quem fez a pergunta. Ele ataca os seus inimigos preferenciais, ele diz que tudo vai se resolver - o problema na educação, o problema na saúde, o problema na ciência, o problema na cultura, tudo que está indo mal - quando a gente atacar e destruir este pequeno grupo, que em geral é minoritário e que muitas vezes é produzido como uma espécie de fantoche ou de espantalho.

Há uma reprodução das ideias do outro ou do grupo oponente de maneira que ela fica tão deformada, que ela só pode ser objeto de ódio, e aqueles que não concordam conosco, que não pertencem a esse grupo, que não fazem parte dessa massa, só podem ser considerados pessoas irracionais, idiotas, pessoas que perderam a razão, ou então pessoas corruptas, porque elas estão de alguma forma conectadas com aquele grupo invasor, com aquela laranja podre, aquele objeto que intrusivamente destrói a ordem e harmonia. Por isso, esse tipo de discurso vai enfatizar a ideia de retorno à ordem, retorno à harmonia, como faz Trump nos Estados Unidos, 'vamos voltar àquele momento em que nós fomos grandes'.

Isso incita as fantasias infantis. Quando éramos pequenos, acreditávamos sem restrições no poder protetor de um pai soberano, de um pai que pode ser muito amado, mas também muito temido; por ele, a gente renuncia o nosso arbítrio, renuncia a nossa capacidade de pensamento próprio - e confia nele. Esse tipo de discurso está baseado numa comunhão de afetos, não exatamente num programa de governo, em explicações de como as coisas vão ser feitas, e é o que a gente encontra na retórica do Bolsonaro. (…) Esse é um discurso muito cativante, porque, na hora que a gente está desamparado, na hora em que a gente está angustiado, a figura do pai protetor é uma espécie de retorno de experiências infantis.

Esse tipo de discurso infantiliza o eleitorado, o que torna o debate muito difícil. Enquanto os outros estão querendo tornar a coisa mais complexa, ver os fatos, analisar caso a caso, essa pessoa está dizendo que a isso é justamente a causa do problema, que os outros estão complicando demais. 'Vamos falar simples, vamos falar como você falaria', e, ao dizer isso, está havendo uma sedução, ele está dizendo que você vai ser representado nesse modo de fazer governo, nesse modo de pensar o estado, nesse modo de fazer política. Foi o que ocorreu nos momentos que antecederam a ascensão do fascismo na Itália, do nazismo na Alemanha, do stalinismo na União Soviética.

A adoração de um líder condutor nas massas, alguém que resolva os problemas por mim, é muito característica de uma posição infantil. Não é à toa que Wilhelm Reich, um teórico que levou adiante a psicologia de massas e a análise do fascismo, as ideias do Freud, disse que há um outro elemento que está ligado à dominação desse líder fascista, que é a forma como ele reprime a sexualidade. Ele diz 'Esse tipo de sexualidade você não deve exercer, não me venha com outras formas de satisfação'.

O que ele faz ao dizer isso? Ele não só quer irritar aqueles que têm uma outra orientação sexual, uma outra posição de gênero, mas está propagando uma anunciação de que devemos recalcar sexualidade, abafar a sexualidade; que devemos trabalhar e deixar de prazer. Para isso ele vai precisar escolher alvos. Talvez muitos não saibam, mas os homossexuais foram levados para os campos de concentração, os ciganos também, muitas etnias minoritárias também, porque seus modos de reprodução, de satisfação, e de vida familiar seriam de gozo excessivo, e esse gozo excessivo está no núcleo da ação recalcadora que discursos como esse promove."

sábado, 4 de agosto de 2018

"Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer o outro é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro." (José Saramago)
"Fique consciente da sua respiração. Perceba como isso tira a atenção dos seus pensamentos e cria espaço." (Eckhart Tolle)
"Cinzas não voltam a ser lenha. Cinzas são cinzas. Cinzas devem ser cinzas. Lenha, lenha." (Shunryu Suzuki, parafraseando Dogen)
"Se existe realmente um caminho, é este: esvaziar-se daquilo que você não é." (Adyashanti)
Vendem-se leis.
"Sua Santidade, o 14º Dalai Lama, enfatiza que a compaixão não é visceral, mas pode ser treinada, estimulada, aprendida. Assim, precisamos estimular nossas conexões neurais, estimular os neurônios de forma a não responder a violência com violência. Compreender até mesmo quem é abusivo e violento, sabendo que essa pessoa também é fruto de uma sociedade violenta. A sociedade como um todo se transforma quando cada indivíduo se transformar. A cultura de paz inclui políticas públicas e o congresso é um espelho da sociedade. Não está separado. Todos nós precisamos nos tornar a transformação que queremos no mundo. Todos nós, eu e você também. A cultura de paz deve passar do papel à educação e a partir dela e do estímulo correto passar à ação." (Monja Coen)
"A guerra das corporações: cada corporação cobra do governo sem nenhuma diretriz que leva em conta a comunidade. É uma situação de anomia. As pessoas não seguem regras, não querem mais levar em conta quais são as regras da sociedade e, com isso, criam uma situação ingovernável." (José Álvaro Moisés, no GloboNews Painel sobre a greve dos caminhoneiros)
O Facebook boicota o YouTube. Acho que o máximo de interação que consegui, diante de um vídeo do YouTube que compartilhei, foi de 01 (uma) pessoa.

E tenho obtido mais interações quando um texto meu não vem acompanhado de um link para uma matéria, por exemplo. Deve ser o mesmo caso: pra não sair daqui.

Também mais interações se eu escrevo e não subo uma foto junto. Aí já deve ser um motivo psicológico (a foto desvia o foco da leitura; a foto "satisfaz" o leitor imediatamente, deixando-o sem vontade de ler as palavras; etc.).

No grupo THE OA Brasil, do qual sou moderador, ocorre o inverso. Lá eu obtenho mais interações com uma imagem. Se o texto estiver contido na imagem (tipo meme), melhor ainda. Deve ser porque a média de idade lá deve ser no máximo 20 anos.
"Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca. Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade." (Quintana)
Duas manchetes no clicRBS (uma exatamente ao lado da outra):
"Piratini anuncia construção de três novos presídios"
"RS corta mais de 2 mil turmas nas escolas estaduais"
"a fixação da mente imatura
que atribui solidez imutável e inegável
a tudo que se manifesta
inclusive a si mesma
cria esse labirinto reativo ~ elétrico
carregado de paranoia medo e agressão
Ampliar amar e fluir é preciso ~ libera quem se grudou em ti"
(Luís Nenung)
"Ser liberal na economia e conservador nos costumes, como o Amoēdo, é tipo 'o Estado não pode se meter no mercado, mas ele pode se meter no seu cu'." (Greg News)
"Eu li um livro muito bom sobre a democracia aleatória. A democracia era aleatória na Grécia Antiga, em Veneza, em Florença. Você tirava na sorte os deputados. E era muito melhor, porque o ser humano aleatório era muito melhor do que o ser humano político. A democracia eleitoral surgiu nos Estados Unidos só no século XVIII, e foi para excluir o pobre. Se for na sorte, existe chance de ter um pobre no poder. Eleitoral é para perpetuar o poder, não é para ser democrático." (Gregório Duvivier)
De um treinamento de atendimento ao público do TRT:

Interesse pelos problemas do usuário:
• Dedicar-lhe toda a atenção;
• Ouvir, cuidadosamente, o que ele tem a dizer;
• Ajudá-lo a expressar-se;
• Fazer-lhe perguntas de esclarecimento;
• Não “despachar” os usuários;
• Não fazer somente o que está no “manual”;
• Não fazer o usuário ficar “dando voltas”.

Qualidade da informação:
• Ser claro, completo e conciso;
• Estar seguro do que diz;
• Permitir objeções (dialogar);
• Ter sempre respostas corretas.

Linguagem e voz:
• Articular bem as palavras;
• Escolher as palavras de acordo com o grau de instrução da pessoa a quem está atendendo;
• Graduar a altura e o timbre da voz, de acordo com a situação.

Tato e habilidade:
• Convencer, sem pressionar;
• Explicar, sem julgar ou censurar;
• Usar gesticulação, expressões fisionômicas apropriadas;
• Usar palavras e declarações apropriadas;
• Ser oportuno, sutil, flexível;
• Evitar contaminar-se com a irritação dos outros.
Os eleitores que dizem "bandido bom é bandido morto" são exatamente aqueles que se identificam com os políticos bandidos. Pelo jeito, se identificam com "bandido ruim".
Greve dos caminhoneiros, toxoplasmose em Santa Maria: o jornalismo não perde a chance de provocar o pânico. O jornalismo precisa chamar a atenção, e o pânico chama a atenção. O nascimento do leãozinho no zoológico não "vende jornal". O pânico mantém a atenção do consumidor. Ele usa a mídia como remédio para o perigo iminente, mesmo que ele seja aquele comum masoquista inconsciente, que torce para que a doença não acabe. Enquanto houver pânico, vai haver interesse forte pela mídia.
Miniconto escroto, meu, com 23 nomes de jogadores que estão na Copa da Rússia. (Se precisar, tenho provas.) - - - - - > Osako da Mina Musa fumou uma Vela Dybala e comeu um Nacho de Salamon, que Embolo no Calderón, e seu Rabiot Cuadrado Kagawa ora um Kokorin Godin Guardado, Luongo e Sadio, tipo um Sisto, ora um Agüero Rakitic, um Arroyo Carrasco, tipo a Vida.
"O medo de fracassar no trabalho talvez não fosse grande se não houvesse uma consciência da frequência com que o fracasso tende a ser visto e interpretado com severidade pelos outros. O medo das consequências materiais do fracasso vem do medo de uma atitude insensível do mundo em relação ao fracasso, de sua inclinação obsessiva a chamar àqueles que fracassaram de 'perdedores' — uma palavra que insensivelmente designa tanto as pessoas que fracassaram quanto aquelas que deixaram de ter qualquer direito à compaixão por terem fracassado. Cada vez mais me convenço que a busca desenfreada pelo sucesso e pela riqueza não é uma realização pessoal... e sim o medo de lidar com as críticas e o falatório da sociedade." (BOTTON, Alain de. Desejo de Status.)
Retweeted Marcia Tiburi (@marciatiburi):

O neoliberalismo, esse capitalismo sem limites, transformou o egoísmo em virtude. O Estado neoliberal opta por satisfazer o desejo de enriquecimento de poucos destruindo a mais básica qualidade de vida de muitos.