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segunda-feira, 12 de março de 2018

FREI BETTO, para Heródoto Barbeiro no livro 'O budista e o cristão: um diálogo pertinente'.

<< O que Jesus queria era anunciar uma proposta revolucionária que vinha do Antigo Testamento, de um projeto civilizatório baseado no amor e na justiça, que ele denominava Reino de Deus, em contraposição ao reino de César. Para Jesus, o Reino de Deus não se situava apenas "lá em cima", no céu, e sim lá na frente, no futuro da história da humanidade. A Igreja, com o tempo, espiritualizou-o de tal maneira que o Reino de Deus ficou "lá em cima". Se Jesus tivesse pregado meros preceitos religiosos, uma nova espiritualidade, certamente não representaria ameaça à ordem política e econômica. Mas anunciar o Reino de Deus dentro do reino de César era o mesmo que, hoje, preconizar a democracia dentro de uma ditadura. Isso é reforçado pela morte tão brutal que ele sofreu, pois se o Reino de Deus fosse somente "lá em cima", por que as autoridades judaicas e romanas decidiram assassiná-lo? É bom lembrar que, naquele tempo, não havia distinção entre religião e política; quem tinha o poder religioso tinha também o poder político, e vice-versa.

Assim como Sidarta, Jesus também assumiu o caminho do meio. A religião judaica tinha dois extremos: os fundamentalismos puritano e legalista. O primeiro, representado pelos monges essênios, cujas ruínas visitei, próximas ao mar Morto, onde desemboca o rio Jordão. Aqueles monges viviam em penitência permanente. Tudo indica que João Batista, primo de Jesus, foi essênio antes de sair pelo Jordão para semear sua proposta religiosa. João era homem de penitência. Jesus, ao contrário, chegou a ser acusado de "glutão e beberrão". E se justificou ao afirmar que não se pede aos amigos do noivo que jejuem enquanto estão com o noivo. As festas de casamento, na época, demoravam vários dias, durante os quais todos os judeus ficavam suspensos das obrigações preceituais de restrição alimentar. No outro extremo, havia o legalismo dos fariseus, saduceus e sacerdotes do Templo, que tudo enquadravam no antagonismo puro ou impuro, enquanto Jesus o fazia no antagonismo justo ou injusto. Jesus pouco se importava com os ritos de purificação. Era criticado, inclusive, por não fazer as abluções, porque os judeus, antes de se sentarem à mesa, lavavam as mãos várias vezes.

Para Jesus, essa prática não tinha a menor importância. Ensinava que a impureza não vem das mãos, e sim do coração. Isso irritava profundamente os fariseus e os saduceus. Muitos estudiosos cristãos dos Evangelhos sugerem que Jesus não tinha plena consciência de que ele era o Messias ou o Filho de Deus, como nós, cristãos, acreditamos. Só teria se dado conta disso ao ressuscitar. Nesta vida, ele mantinha profunda intimidade com Deus, o que destoava da relação tão escrupulosa dos judeus com Javé, a ponto de sequer pronunciarem a palavra Javé que, em hebraico, não tem vogal, é impronunciável. No entanto, Jesus chamava Javé de Abba, em aramaico, que significa "meu pai querido". Isso reflete uma intimidade muito profunda. O que é surpreendente a muitos é saber que Jesus tinha fé como nós temos. A ideia de que ele trazia na mente uma visão onipresente de Deus não tem fundamento teológico.

A grande contribuição do budismo ao cristianismo é a meditação como excelência de oração. Na meditação, escutamos Deus, um escutar sem ouvidos e palavras, uma intuição, irmã gêmea da inteligência. Inteligência, em latim, significa intus legere, ser capaz de "ler dentro". Recordo a cozinheira do meu avô materno, Bertula, filha de escravos, que nunca aprendeu a ler, mas era muito inteligente. Às vezes, chegava uma visita na casa de meu avô e ela apenas observava. Depois, chamava minha avó e alertava: "Olha, sabe aquela pessoa? Não confie, não". Dito e feito. Era inteligente e intuitiva também, como se lesse no interior das pessoas e pressentisse algumas situações. A intuição é irmã gêmea da inteligência. Esta opera na mente, aquela no plexo solar. >>

quinta-feira, 8 de março de 2018

"Alguém tem uma explicação que traga luz para o fenômeno de alguém me odiar ( o que não é um problema) e, diariamente, detestando tudo o que faço ou escrevo, seguir-me, postar, dar-se ao trabalho de fazer memes, ler tudo, desvendar minha agenda, ver  meus vídeos, acompanhar palestras e buscar livros TODOS OS  dias dizendo que  sou um idiota?  A  minha curiosidade é outra: se eu sou um imbecil, por que perder tempo comigo? Alguém tem uma pista para esta fidelidade dependente? Qual é o fator psicanalítico que desencadeia viver sempre à sombra do seu próprio ódio?" (Leandro Karnal)

quarta-feira, 7 de março de 2018

"Abelhas que são melhores 'agentes funerárias' e removem corpos mortos de suas colmeias costumam ter menos doenças e crias em maior número e mais saudáveis. Aranhas que constroem teias mais ajeitadas pegam mais presas. Pássaros preguiçosos são tolerados porque, em tempos de desespero, podem servir de babás para seus parentes." (Mikel Maria Delgado/Nexo Jornal)
Filósofo Vladimir SAFATLE - Não haverá 2018. Primeiro porque não há como o país voltar a uma normalidade política depois de ficar dois anos na mão de um presidente que é reprovado por mais de 90% da população, um Congresso Nacional indiciado e profundamente oligárquico e um Judiciário contraditório. A cada dia fica mais claro isso, que o País vive uma espécie de guerra civil entre quem tomou o controle do Estado brasileiro e a população. Essa hipótese hoje tem várias formas de tomar prática. A primeira é uma eleição comprometida, uma eleição “bielorrusa” onde você impede de concorrer todos os candidatos que têm chance de ganhar e que não fazem parte do núcleo hegemônico do poder atual. De outro lado você tem a velha opção do parlamentarismo, que é o sonho de consumo das oligarquias locais, eliminando a eleição presidencial de vez. E é importante que o brasileiro não se confunda, nós não temos o parlamento sueco. O nosso parlamento, pelo contrário, foi sempre caixa de ressonância de oligarquias, com seus interesses próprios. E, por fim, não se dá para descartar hoje uma guinada mais explicitamente autoritária. O que não pode ser descartado em nenhum momento.

Jornal O Povo - O senhor tem associado essa tese à necessidade de negação aos modelos de governabilidade em vigência do País. Por quê e como isso afeta nas urnas?

SAFATLE - Em primeiro lugar, qualquer eleição agora vai ter uma volatilidade muito grande, você vai ter votos voláteis, onde você pode mudar de uma maneira muito forte para um lado ou para o outro. Você tem ainda uma casta política que conseguiu estabelecer um processo de bloqueio da constituição de novos atores políticos. Então você participar de uma eleição aqui no Brasil é algo extremamente complicado, porque os partidos constituem uma “partidocracia” fechada. Você não consegue escapar dessa situação, por exemplo, quando uma candidatura independente fica totalmente de fora do processo. Então você tem um sistema apodrecido, no entanto blindando, e uma população que demonstra muito claramente que não tem nenhuma adesão à classe política que a representou até agora. E uma população que, no entanto, é cada vez mais alijada do processo. Um país governado por alguém que tem 93% de reprovação, isso não existe. Que tipo de democracia é essa? Quem que eles estão representando? Por exemplo, o Congresso Nacional aprovou agora uma reforma trabalhista. Segundo as mais moderadas pesquisas, 73% da população brasileira era contra a reforma. Quem esses congressistas representam então?
"Em um dia muito importante para a história brasileira, marcado por mais uma violação explícita da Constituição da República, não me é admissível participar de um programa, que tenderia a se transformar em um grotesco espetáculo no qual duas linguagens que não se conectam seriam expostas em uma espécie de ringue, no qual argumentos perdem sentido diante de um já conhecido discurso pronto (fiz uma reflexão teórica sobre isso em “A Arte de escrever para idiotas”), que conta com vários divulgadores, de pós-adolescentes a conhecidos psicóticos, que investe em produzir confusão a partir de ideias vazias, chavões, estereótipos ideológicos, mistificações, apologia ao autoritarismo e outros recursos retóricos que levam ao vazio do pensamento." (Márcia Tiburi)
"Por isso o Budismo é tão necessário – ele vem como um caminho no qual nós silenciamos, olhamos para dentro e examinamos como nós estamos operando e, a partir disso, obtemos uma liberação da operação comum da nossa mente. Isso não está dentro da nossa cultura, por isso é difícil. Mas, na verdade, isso não é difícil, apenas não está dentro da nossa cultura. Os pais não entendem, os avós não entendem, ninguém entende, aquilo tem que ser comunicado, mas não é que seja difícil – é uma questão de observar." (Lama Padma Samten)
"Identificar-se com a mente faz com que os pensamentos se tornem compulsivos." (Eckhart Tolle)
"Pessoas ignorantes ou marrentas podem tirar qualquer um do sério no âmbito das relações do trabalho, da família, da política, da religião ou em outras situações. Aprender a lidar com elas é um desafio ao nosso equilíbrio emocional. O conceito de marrento é análogo ao de ignorante, podemos usar para indicar pessoas que gostam de gabar-se de suas habilidades, que são cheias de turras, que se acham posudas, astutas e influentes. Mas os ignorantes, na maioria das vezes, apresentam um temperamento difícil, conhecidos como cabeças-duras. (...) Diante do seu obscurantismo, posicionam-se de modo agressivo em relação aos outros. (...) No fundo, essas pessoas sentem-se superiores e por isso, elas têm dificuldades de relacionarem-se de forma educada. A maneira de não se estressar, é em nenhum momento levar a sério os indivíduos ignorantes, porque existem circunstâncias onde não há argumentos possíveis, uma vez que os ignorantes não fazem questão de ouvi-los. (...) Não devemos levar para o lado pessoal quando indivíduos com esse perfil se comportam de modo grosseiro conosco, pois eles são assim com todos. Devemos mostrar que somos educados, que nossos gestos são amigáveis, e podem neutralizar a tensão deles, que estão sempre em negação ou na defensiva. As experiências com criaturas ignorantes é um bom exercício ao nosso equilíbrio emocional, com o objetivo de não permitir que as emoções negativas prejudiquem em nosso discernimento. Isto pode nos ajudar a fazer um esforço para conhecê-los melhor, antes de enfrentá-los inultimente. Talvez as pessoas sejam ignorantes porque tiveram uma infância difícil, ou porque simplesmente encontram-se inseguras diante do mundo. Não vale apena prejudicar a nossa saúde mental, tentando transformar aquilo não se pode mudar." (Jackson César Buonocore)
"Discutir com ignorante é mesma coisa que jogar xadrez com uma pomba, ela derruba todas as peças, caga no tabuleiro e ainda acha que ganhou." (Alexsandra Zulpo)
"Após o 11 de Setembro, o instituto Gallup fez sua maior pesquisa até então realizada: em 35 países de maioria muçulmana e durante cinco anos. Os participantes deviam responder se justificavam os atentados, e 93% disseram que não. E seus motivos foram totalmente religiosos, citando o Corão. O interessante é que, para os 7% que justificavam o 11 de Setembro, as razões não eram religiosas, mas políticas. Esse tipo de coisa deveria aparecer nas capas de jornais como o The New York Times para que o público tivesse uma ideia mais completa do problema que enfrentamos. É muito fácil dizer que isso é coisa da religião, mas o terrorismo, seja qual for a sua motivação, é sempre político." (Karen Armstrong)
"É dramático ver como um grupo sentado ao redor de uma mesa, em vez de conversar, concentra-se individualmente em seus telefones. É estranho, pois é como sair do próprio corpo. Os neurologistas dizem que aprendemos através dele; por isso os rituais são importantes. Não é por acaso que um muçulmano reza voltado para Meca e que o canto tenha sido tão importante na Idade Média. Esse aprendizado com o corpo está se perdendo, especialmente desde o Iluminismo, e a tecnologia é o último passo nessa direção." (Karen Armstrong)
Psicologicamente, quem ataca está se defendendo de uma ameaça que está dentro de si próprio.
Centauro, Riachuelo, Habib's, Havan, Polishop, Hemmer, Ragazzo e Drogasil são signatários do manifesto "Brasil 200 anos", um documento organizado por empresários - tendo Flávio Rocha, da Riachuelo, à frente - que pressiona pela adoção de medidas liberais na economia brasileira.

"O livre mercado não é apenas a melhor arma contra a pobreza, é a única. Todos nós, em algum momento da vida, precisamos fazer uma escolha: ou estamos ao lado dos pobres ou da pobreza. Ou temos amor aos mais necessitados ou temos ódio aos ricos. São sentimentos incompatíveis. Se você é solidário ao pobres, faz tudo para que saiam da pobreza. E é o livre mercado que pode gerar oportunidades e riqueza para todos, especialmente os mais pobres. Quando vamos aprender esta que é a mais básica das lições da história?"
Tiro de Mehta
"Os antropólogos relacionaram o hábito do beijo romântico a sociedades mais estratificadas. Assim, em comunidades mais igualitárias, de caçadores-coletores, por exemplo, da África Subsaariana ou da Nova Guiné, o beijo não é observado por pesquisadores. em grupos com organização social mais complexa, o beijo é mais frequente. É possível que a emergência do beijo romântico-sexual tenha coincidido com outros fatores, como higiene oral ou o surgimento de elites que valorizam o autocontrole do afeto." (José Orenstein/Nexo Jornal)
<< O TSE liberou o financiamento de campanhas com recursos próprios. A regra beneficia os parlamentares que já estão no exercício do mandato, haja vista que o Congresso Nacional ser formado basicamente por empresários ricos. Além deles terem a vantagem competitiva, que é o próprio mandato, ainda terão a favor o dinheiro que acumulam em suas atividades empresariais. Ademais, as doações de terceiros serão limitadas a 10% do rendimento bruto do doador no ano anterior ao da eleição, segundo a resolução do TSE publicada no último dia 2. O financiamento privado (empresariais) estão proibidas desde 2015. O Fundo Especial de Financiamento de Campanha é manipulado pelos próprios parlamentares que controlam as máquinas partidárias. Ou seja, só perderá a reeleição aquele parlamentar que é “pereba”. Portanto, não espere renovação no Congresso. >> (Esmael Morais)
"Assisti à série catalã Merlí (Netflix). O objeto é o professor de filosofia que estimula os alunos ao livre pensamento. Como em várias produções similares ( Sociedade dos Poetas Mortos , o Sorriso da Mona Lisa etc) o professor incomoda as estruturas tradicionais. A grande diferença é que Merlí não age sempre na mais elevada ética. Suas aulas trazem bons exemplos da maiêutica socrática." (Leandro Karnal)

"Estou criando esta página para discutir a filosofia no ensino médio. Merlí, personagem da série da Netflix, é a figura inspiradora. Toda discussão aqui estará inspirada nesse professor catalão (fictício) que começa tornando a filosofia atraente para seus alunos adolescentes, depois a converte num instrumento poderoso de libertação e a transforma na matéria de que os alunos mais gostam na escola. A cada episódio, ele relaciona um filósofo ou grupo de filósofos com questões que mexem com a vida dos alunos, da escola e dele mesmo. Ou seja, longe de ser a filosofia uma matéria chata e fechada sobre si mesma, ele lhe dá o papel central de fazer pensar e, assim, libertar as pessoas de suas amarras. Esta página, independente, está com as portas escancaradas para quem quiser pensar e trabalhar nesta direção." (Renato Janine Ribeiro)
Tiago Ianuck
February 17 at 3:27am ·


Amar é perder-se.
Perder-se é poder se achar.
Achar-se é poder se perder.
Acho.
Luís Nenung
February 20 at 8:44am · Três Coroas ·


tem coisas que parece
que a gente nasceu sabendo
outras que a gente aprende trocando
e algumas que só descobre escolhendo
e arriscando errar bonito ~
Só tem impacto no nosso mundo
os saberes que a gente vive