
Não é surpresa a confusão que os seres humanos contemporâneos fazem entre naturalidade e entediamento, entre filme realista e filme mal conduzido, entre personagens confusas em situações complicadas e atrizes confusas em roteiros complicados. Também não são surpresas a crítica apressada e a fruição apressada (que gera o ódio pelo minimalismo) - sem falar em crítica sem experiência de pesquisa. Mas parabéns ao Régis Trigo, que faz uma competente resenha.
É difícil entender o que aconteceu com Julio Medem. O diretor espanhol, cultuado por filmes como Os Amantes do Círculo Polar (1998) e Lúcia e o Sexo (2001), enveredou por caminhos confusos e não é mais o mesmo. Seu recente filme Caótica Ana (2007) já demonstrava falta de foco e de rumo. O mesmo acontece neste novo Um Quarto em Roma. Mesmo que a trama não tenha originalidade - já foi explorada em filmes como o chileno Na Cama, de Matias Bize, Antes do Amanhecer, de Richard Linklater, e tantos outros -, poderia, ainda assim, tornar-se interessante. Um problema está no roteiro - do próprio Medem -, inconsistente e pretensioso quando faz digressões sobre música e os quadros que enfeitam o quarto de hotel romano que será praticamente o único cenário de todo o filme. (Reuters/UOL)
Um Quarto em Roma não passa de pornô lésbico "com história". É um drama erótico que sofre pela falta de um roteiro interessante, que não só prenda a atenção do público como mantenha seu interesse pela história até o final – algo imprescindível em um drama que se propõe a exibir apenas duas personagens confinadas em um ambiente fechado durante toda a projeção. As mulheres exibem sem pudor suas curvas e sexos, mas não conseguem desnudar suas almas. Histórias sobre suas possíveis realidades são trocadas por informações de caráter duvidoso a respeito de suas personalidades. A inconstância de suas obras começa a deixar público e crítica preocupados. Com esta nova produção, o cineasta se preocupou tanto em emoldurar a beleza de suas atrizes que acabou por criar uma obra vazia, que flerta perigosamente com o kitsh. O longa tenta ser poético, mas é apenas piegas – e Jocelyn Pook na trilha sonora só contribui para tal. Trata-se de mais um daqueles filmes "que poderiam ter sido". (Fabricio Ataide/Pipoca Moderna)
Julio Medem é um cineasta interessantíssimo. Dito isso, não se explica o fato de ter escrito e dirigido este Um Quarto em Roma - pelo menos não para o cinema. A trama, por um lado, é descaradamente inspirada no clássico de Bergman, Persona, em que a enfermeira Alma (Bibi Andersson) é enviada para uma isolada casa de praia para cuidar da famosa atriz Elizabeth Vogler (Liv Ullmann), que fez voto de silêncio e se recusa a voltar aos palcos. Na casa de praia, as duas mulheres sofrem uma fratura de personalidade e se confundem. No entanto, Persona é até hoje tido como um conto lésbico graças a famosa cena em que uma beija o pescoço da outra. Textos de tamanha complexidade só devem ser confiados a intérpretes capazes, o que não é o caso de Natasha Yarovenko. Outro agravante é o fato de Medem se guiar pelo movimento das personagens, intensificando a impressão de que estamos diante de material teatral. Há ainda inserções de música equivocada e surrealismo metafórico, que, se não dá ares de soft porn barato, evidencia a pretensão descabida do realizador. Não é para quem procura um dos densos e elegantemente sensuais filmes de Medem, e sim para quem quer ver belas mulheres incansavelmente nuas. (Lucas Procópio/xcine)
Apenas 3 atores em cena: 2 mulheres que se conhecem num bar em Roma e 1 homem que faz o porteiro, telefonista, etc no hotel... Roma é apenas uma referência, porque o filme se passa todo no quarto de hotel com vista para o centro e o Vaticano. Assisti no Festival Mix, sessão lotada, e muita expectativa na plateia, mas no final alguns saíram da sala antes de acabar e outros ficaram desapontados porque não é uma coisa e nem outra: nem filme de sacanagem e nem sério, nem algo muito convincente, com texto irregular com um porção de mentiras sobre suas vidas e sem muita veracidade. Me lembrou aquele tipo de filme que passa na tv a cabo, onde nada acontece de verdade e todos fingem muito mal, as mulheres apenas gemem... (Rosemar Schick/Salada Cultural)
O diretor é famoso por seu erotismo, mas foi mal recebido na Espanha, onde foi chamado de minimalista e mesmo de filme menos interessantes de sua carreira, com embates físicos interrompidos por interlúdios musicais. Dizem que até cai no ridículo ao final. Parece aquele filme do Gianecchini que se passa num motel, inteiramente numa cama/quarto. Um set, duas atrizes por uma hora e 43 minutos. Ou seja, erotismo intelectual. Para quem curte. (Rubens Ewald Filho)
Ninguém entendeu o que o diretor quis dizer com Caótica Ana (idem, 2007), uma verdadeira salada mista sobre uma mulher e suas vidas passadas. Três anos ele volta à cena com esse Um Quarto em Roma. Apesar de ter o mérito de ser um projeto que vai no extremo oposto de seus trabalhos anteriores (o que revela um artista em constante renovação), o resultado, infelizmente, está bem aquém do alcançado pelo diretor no início de sua carreira. Medem parece transformar o quarto numa espécie de confessionário. Consumidas por seus dramas pessoais, aquelas mulheres terão que se desnudar dos seus passados, dos seus preconceitos, das suas vergonhas, dos seus valores, e até mesmo das suas roupas. Somente assim, o íntimo de cada uma virá à tona. Um Quarto em Roma está mais próximo de Bernardo Bertolucci, de O Último Tango em Paris (Ultimo tango a Parigi, 1972) e Patrick Chéreau, de Intimidade (Intimacy, 2000), do que Jean-Claude Brisseau (Os Anjos Exterminadores [Les Anges Exterminateurs, 2006]). O cinema de Medem exige espaço. A geografia dos cenários exerce papel fundamental nas histórias (foi assim com a praia e o acampamento de trailers, em O Esquilo Vermelho; a ilha, em Lucia e o Sexo; a Finlândia, em Os Amantes do Círculo Polar, a ilha de Ibiza, em Caótica Ana). Seus personagens se recusam a ficar estáticos. Antes disso, correm atrás dos seus destinos. Um Quarto em Roma é a antítese do estilo de Medem e esse seu desconforto é visível no resultado final. Além disso, Medem optou por um formato minimalista de filmar, sem muitos artifícios, quase teatral. Mais uma vez a escolha vai contra a sua própria assinatura. Medem faz um cinema rasgado, exagerado, deliberadamente over the top. (Régis Trigo/Cineplayers)
Se as primeiras cenas parecem cálidas, a sua repetição vai tornando-as banais. E, à força da repetição, enfadonhas. É como se dois corpos jovens e belos, pelo excesso de exposição, acabassem por se despir de todo caráter erótico que poderiam ter no início. Além disso, no intervalo entre os, digamos, embates entre as duas, inserem-se alusões culturais que parecem francamente deslocadas. O filme encaminha-se, pouco a pouco, mas de maneira inexorável, a um artificialismo sem recurso. Com Um Quarto em Roma, Medem parece fazer seu pior trabalho. O cerebralismo vazio parece se unir a um exibicionismo sexual fashion sem qualquer consequência. Não conseguimos enxergar humanidade naquelas duas belas moças que se entregam ao prazer de maneira aeróbica, tendo por testemunha as quatro paredes da stanza romana e umas poucas vistas para a Cidade Eterna através do balcão, onde de vez em quando repousam. Vazio, mas não de maneira crítica mas porque foi pensado no vácuo e sem qualquer aprofundamento nos sentimentos das personagens. (Luiz Zanin/Estadão)

3 comentários:
claro, sou fã do Mendem. claro, principalmente dos seus primeiros filmes. claro, nunca beijo um crítico. mas de alguma forma, em trailers e fotografias, esse filme Um Quarto em Roma não me despertou curiosidade alguma. verei?
devo corrigir. as atrizes me fazem querer ver o filme. o Medem também. mas dessa vez as atrizes mais! [e o que era a Paz Vegas como Lucía?]
Verá. Vale a pena. Por atrizes, principalmente pela Elena Anaya - a Belén de Lucía. Pra mim ela ganha nota dez em Roma.
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