"(...) Essa possibilidade de todos os Nordestes chega a 'Árido movie' como Nordeste nenhum. Espaço híbrido e esquizofrênico em que convivem um Antônio Conselheiro de barbas brancas com um índio apache ao mesmo tempo borracheiro e mentor espiritual, num sertão filmado com a vontade de ser um Monument Valley sem alma, 'Árido movie' usa a loucura como artifício para justificar as incoerências, mas se esquece que mesmo os loucos têm seu sistema próprio (e para eles muito coerente) de verdades. Por mais retrógrado e anacrônico que seja atribuir as velhas pechas da cegueira pelo crime e pela religiosidade, o mínimo que se espera de um filme é que acredite nelas (mesmo que seja para negá-las mais adiante). 'Árido movie' não acredita em nenhuma de suas próprias imagens."
Eu, que não sou um jornalista recheado de background sobre a cultura brasileira e nordestina e sobre o cinema nacional, enxerguei outras referências em excesso, chegando ao envergonhamento, referências a filmes e estéticas do cinema contemporâneo internacional. No começo, já aparece Wong Kar Wai (enquadramento de São Paulo) e 'Old boy' (Guilherme Weber caminhando na calçada e atendendo o celular); depois, aparece de tudo: 'Jardineiro fiel' (jipe indo em direção a um penhasco num deserto), 'Medo e delírio em Las vegas' (amigos junkies viajando num carro conversível), 'Reviravolta' (carro conversível, mecânico que atrasa a viagem, deserto, a personagem Wedja que lembra a personagem da Salma Hayek, profetas etc.), 'Assassinos por natureza' (viagens alucinógenas), 'A deusa de 1967' (a descarada cena da dança no bar, o lagarto), 'Hora de voltar' (o filho que volta à cidade natal a contragosto depois de muito tempo só porque é o enterro do pai) e até 'Diamante de sangue' (a jornalista de jipe) e 'Babel' (quando o trio se perde no deserto perto da plantação de maconha). (Mais um parêntese: parece que o diretor de fotografia do Wong Kar Wai é o mesmo do filme 'A deusa de 1967': Cristopher Doyle.) Puta que pariu.
Pelo menos em 'Cinema, aspirinas e urubus' eu enxerguei somente 'O diário de motocicleta' e 'O carteiro e o poeta'. Gostei do filme, até. Principalmente do João Miguel como Ranulpho. O Guilherme Weber em 'Árido movie' decepciona, depois de eu tê-lo visto ao vivo interpretando o Rob de 'Alta fidelidade' na peça (que revelou o ator) 'A vida é cheia de som e fúria'. Gostei de rever a Giulia Gam, e o Selton Mello sempre detona. Dessa vez, até com uma pança. O personagem me lembrou o meu amigo Caco. Ah, e o José Dumont é uma figura sem igual.
Amanhã (hoje) será a vez de 'Lavoura arcaica'. Em tempo: 'O cheiro do ralo' é genial pelo Selton Mello e pela idéia da bunda. De resto, nada acontece. Assim como nada acontece em 'Amarelo manga', o pior dos quatro até agora. Nas imagens, essa leva de filmes brasileiros contemporaneizados tem caprichado, mesmo quando o capricho não é muito original. Até o 'Via Láctea' - o qual, eu havia esquecido, é o pior dos cinco, disparado... ou não? 'O cheiro do ralo' utiliza lindos enquadramentos minimalistas do exterior da loja do personagem do Selton Mello.
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(...) O que aconteceu nos sessenta segundos que se seguiram a esse momento? Acho que eu sentei na mesa onde, em menos de vinte e três horas depois, eu estaria sentado de novo. (...)

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