O experimentalismo gratuito é como o anel de Mordor: a tentação é grande de colocá-lo no dedo e tornar-se o Senhor. Findo mais um festival do Antena, a questão volta à minha mente: é muito fácil fazer noise aleatoriamente, sem nenhum conceito consistente, sem nenhuma textura extraordinária, sem nenhum propósito específico. O meu próprio projeto fica na beira desse abismo, às vezes. As ferramentas do noise, e o drone é uma delas, são espetaculares, mas não são estudadas de modo a se tornarem composições com grandes chances de serem interessantes para a maioria dos ouvintes. Falta música: ou falta melodia, ou falta estrutura, ou falta ritmo, ou falta repetição, ou falta ousadia nos conceitos (pensar efeitos físicos dos sons, por exemplo). Como me disse o Muriel no festival anterior: não temos noção, aqui, de que tudo isso já foi feito e muito melhor. Estamos patinando - em experimentalismo conteporâneo também (não só em rock conteporâneo ou em qualquer arte contemporânea). É verdade que, se encucar muito com essas coisas, ninguém faz nada de noise. Eu mesmo não comecei às ganha um segundo disco do input_output também por não saber exatamente o quanto me sacrificar e por onde. Dá um medo de não conseguir fazer diferente disso que às vezes desanima. Com todo o respeito com os meus amigos que tocaram, mas aconteceu alguma coisa em algum momento dentro daquele teatro?
"Sabe-se que Ryoji Ikeda é um dos nomes mais importantes e inovadores da eletrônica experimental made in Japan, titulo que se pode igualmente ampliar para o panorama internacional. Somando-se uma actuação sua em Madrid ? no fantástico Museu Nacional Reina Sofia ? com o fato de os ingressos serem gratuitos o resultado é uma procura brutal pela mágica entrada que desse acesso ao local do concerto. Cerca de uma horas antes do início da atuação, já se amontoavam pessoas numa fila que, cedo, se desfez com o aviso de que já não haveria mais entradas. Os felizes contemplados, quando dentro da sala, viam-se sentados num anfiteatro e com várias colunas ao seu redor, em círculo, digamos, fechado (fato com certeza não inocente). Havia também quem ocupasse o palco vazio da sala, ficando assim virado de para o público e para Ryoji Ikeda, que apresentava-se nas costas da platéia, na 'mesa de som', como se se preparasse para conduzir o público por uma viagem. E assim foi.
"A atuação acontecia com um propósito claro. A apresentação do fantástico 'Dataplex', o disco do japonês editado pela Raster-Noton em 2005. Ryoji Ikeda é conhecido por explorar a causalidade do som com a percepção humana, intenção que se torna ainda mais óbvia quando o japonês se encontra numa posição de transpor a sua música dos discos para os concertos ? e as condições da atuação privilegiavam precisamente essa relação íntima do som com os ouvintes. Há de fato uma certa matemática nas composições de Ryoji Ikeda, há realmente algo que provoca uma certa ausência de espaço e de tempo, um jogo cerebral entre aquilo que existe e aquilo que é criado artificialmente. E para isso Ryoji Ikeda apropria-se da geometria, da arquitectura, da projecção de representações imaginárias (a sala manteve-se escura do início ao fim), do minimalismo. Nada parece acontecer por acaso, nada acontece por acaso, nada pode acontecer por acaso." (Ryoji Ikeda, Museu Nacional Reina Sofia, Madrid, 12/07/2006. André Gomes/Bodyspace)
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terça-feira, 12 de dezembro de 2006
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