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segunda-feira, 24 de julho de 2006

FIBERONLINE
17/07/2006
Do pós-rock às experimentações eletrônicas mais extremas
por Luis Depeche

Douglas Dickel é o cérebro por trás do projeto Input_Output, um dos representantes da música experimental produzida no sul do país. Ele contou ao FiberOnline como foram as etapas de produção de seu audacioso álbum de estréia, intitulado 'Eu Contenho Todos os Meus Anos Dentro de Mim'.


Você vem de um background musical mais voltado para o rock. Como surgiu o interesse pela música eletrônica?

Coincidentemente. Criei um disco sem pensar racionalmente em como queria que ele fosse. Pouco antes de começar o processo criativo, fui acumulando todas as minhas reações a todas as músicas que eu vinha ouvindo, registrando tanto aquilo que me agradava como principalmente aquilo que sentia falta gerando uma ânsia crescente por ouvir aquele som ainda não encontrado.


No álbum 'Eu Contenho Todos os Meus Anos Dentro de Mim' você utiliza samples de maneira inusitada e até mesmo surreal. Daria para comentar um pouco sobre o seu processo de produção e sobre os samples utilizados no álbum?

Dou a partida com uma porção de direcionamentos inconscientes, que vão se manifestando somente na prática, na forma da música. Então a estética do disco surgiu espontaneamente, à medida que cada música ia sendo feita, intuitivamente. Na falta do som que eu estava procurando, eu próprio o fiz; talvez seja o que acontece com qualquer compositor, mas foi com essa surpresa com relação ao acaso que eu percebi esse impulso criativo. Eu não sabia exatamente qual era o som, nem como era, mas sentia que poderia e deveria fazê-lo. Eu tinha como munição uma série de samples e loops acumulados em uma pasta, e a maioria deles eram de estática de rádio. Esse clique deu na minha mente depois de eu rever o filme "Contato", do Robert Zemeckis, baseado no livro do Carl Sagan. Ele me fez lembrar que na infância a hipótese de comunicação extraterrestre me fascinava e que, de alguma forma, eu relacionava isso com o rádio de ondas curtas que o meu pai tinha, com as estações de rádio de outros países mal sintonizadas, ou seja, carregadas da "sujeira" da estática.

Comecei a digitalizar um walkman sendo freneticamente sintonizado por mim. Depois, eu ouvia os resultados e separava aquilo que era interessante como loop. E então eu justapus esses loops, gerando o caráter minimalista que a música eletrônica tem, mas que até então eu havia experimentado, ativa e passivamente, apenas no post-rock. Quando o disco ficou pronto, eu não sabia como classificá-lo, adotei o post-rock/experimental. Pensei em noise, trip hop, industrial. Mas foi só quando dei uma entrevista para o site português Bodyspace que alguém, no caso o André Gomes, por meio de uma pergunta como a sua, fez-me pensar pela primeira vez na minha obra como eletrônica. E um tempo depois, ainda, eu vim a conhecer o duo finlandês Pan Sonic, que me fez mergulhar na pesquisa de artistas eletrônicos de vanguarda. Gosto de usar sons de erros, porque eles são presentes do acaso.


Comente um pouco sobre as participações neste álbum.

Quando ouvi a voz da Mariana Prates pela primeira vez, no disco da banda Superphones, senti que deveria ser a voz que representaria a outra pessoa a dizer, junto comigo, "Vamos juntar nossos escombros e formar a cidade mais bonita do mundo", em 'Escombros'. Convidei-a, ela aceitou e deu o toque feminino para a música mais suave do disco. Para a faixa 'Joseph Campbell', eu queria uma leitura de trechos desse autor que tratam sobre a interpretação da simbologia do cristianismo, mas não queria mais uma leitura com a minha voz, pois eu já havia declamado um poema em 'Albatroz'. Sabendo disso, minha mulher, Manuela Colla, ofereceu-se para gravar, gravou e ficou um bom resultado. Foram essas as duas participações.


E como surgiu a oportunidade de ter seu trabalho lançado pelo selo Open Field Records?

A Peligro Discos, que faz parte do coletivo Open Field, já distribuía os discos (independentes) da Blanched, minha banda de post-rock. Era a minha única opção para o input_output, se eu não fosse lançar com o Open Field, eu lançaria sozinho. Questão de identificação com o gosto musical, com os estilos que eles abarcam, com o profissionalismo, com os projetos visuais. Lancei uma cópia da master para o Guilherme Barrella, e então ele e os sócios dele, felizmente, interessaram-se em lançar o 'Eu Contenho...' pelo Open Field.


No caso do Input_Output, produzir música experimental dá prazer ou é um puro exercício calculado, daqueles que exige muita concentração?

Prazer. Produzir música, independentemente do adjetivo que vem depois, é sempre prazer. Catarse. Também há o sofrimento do parto da obra, mas é um sofrimento ao mesmo tempo prazeroso, até porque resulta no nascimento do filhote. E eu, particularmente, não sei o que é planejar a criação de alguma obra, seja de música ou de qualquer outra linguagem artística. Concentração é fundamental sempre. "Cálculo" às vezes é necessário, mas nunca vem sozinho, por causa do meu método espontâneo.


Em sua opinião, sentimento e emoção cabem na música experimental?

Sentimento e emoção SÃO a música experimental - boa. É claro que um experimentalismo que me soar ruim não vai me trazer outro sentimento senão o de não querer ouvi-lo. Mas uma música extremamente "alienígena" (se considerarmos a existência de um padrão "terrestre") pode causar as maiores emoções. Colocam-se os fones e os sons vão puxando a alma para todas as infinitas direções, causando reações claramente físicas, inclusive. Bem, isso todo mundo conhece, é a música. Mas entendo que muitas pessoas, a maioria delas, têm repulsa à música experimental. Os motivos são tantos que renderiam um texto só para eles. O principal motivo é o medo do desconhecido. Surpreender-se é a melhor coisa que há. Enfrentar os medos também é uma das melhores atividades. As duas coisas têm a ver com superação.


O que você tem escutado ultimamente?

Minhas descobertas mais recentes são os japoneses Ryoji Ikeda e Sakamoto (ex-Yellow Magic Orchestra) e o alemão Carsten Nicolai a.k.a. Alva Noto, todos fazendo uma eletrônica bastante extrema, no limite com a não-música, mas até por isso bastante interessantes. É bonito explorar ao máximo os limites, as fronteiras. Destaque para o álbum 'Matrix', do Ikeda, que é o exemplo mais apropriado de produção de reações físicas no ouvinte. Sempre ouço algum disco de Sonic Youth, Grandaddy, Múm. Descobri também as cantoras Neko Case e Jenny Lewis, bem como suas respectivas bandas, The New Pornographers e Rilo Kiley. Bandas com vocal feminino como The Fiery Furnaces, Architecture In Helsinki, Arcade Fire e Black Box Recorder. Andei fazendo uma aproximação com os mestres do jazz, como Coltrane, Monk, Miles Davis. Conheci também artistas do doom ambient, dos quais passei a ouvir o Sunn 0))), outro provocador de claros efeitos físicos.


Se você pudesse remixar o trabalho de alguém, de quem seria?

Já tentei me imaginar remixando algo, até mesmo meu próprio álbum, mas não consegui. Talvez seja reflexo do fato de que eu nunca gostei de nenhum remix de nenhuma música, sempre me pareceu que eles estragam as originais, então eu nem chego a considerá-los.


E quais são os planos do Input_Output para o futuro?

Quanto às criações e aos discos, seguir adiante. Quando e como eu ainda não sei. Mas existe a versão ao vivo do "Eu contenho...', que está sendo levada aos palcos por mim e mais três instrumentistas: Felipe Oliveira, Mateus D?Almeida e Renan Stiegemeier. Fazemos rodízio na operação de synths (um digital, um analógico e o Nanoloop do Game Boy), megafone, ursinho-musical-de-ninar-à-corda, aspirador de pó, prato de ataque com pedal de delay e samples disparados por meio de um discman, além de guitarra, baixo e bateria, ligados ou não a pedais de efeitos. O show está montado para ser apresentado sempre que há oportunidades. No próximo dia 25, faremos uma versão diferente do show, como convidados do coletivo Antena [http://www.antena.art.br] para um evento no Teatro de Arena, em Porto Alegre. Não utilizaremos bateria convencional nem baixo, afastando-nos dos elementos de rock e explorando as texturas e o experimentalismo, porque o evento é específico de música eletrônica. Ah, e o 'Eu contenho...' poderá ter uma edição em Portugal, por meio do selo Music Is Math, do André Gomes (Bodyspace), possibilitando um alcance europeu.


Baixe input_output no FiberOnline: http://www.fiberonline.com.br/artista.php?id=1993

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